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Queremos estes muros?

Terça, 11 de Agosto de 2015 984 visualizações Partilhar

Em período de férias (para os privilegiados, que cada vez são em menor número) os ecos dos conflitos contemporâneos perseguem-nos repetitivamente, quedando-nos em reflecções sobre como aqui chegámos e para onde desejaríamos ir.

A concentração artificial da riqueza global (na mão de parcas centenas de “eleitos”), a explosão populacional dos continentes africano e asiático, o envelhecimento da velha Europa e os interesses económicos que medram em todos os conflitos, crises e tensões, constituem o cocktail perfeito para um novo e potencial conflito mundial que não devemos ignorar.

Como resultado dos múltiplos conflitos de interesses que, desde a era do expansionismo/colonialismo europeu ao fim ao Império Otomano, retalharam territórios ocupados por populações nómadas, de diferentes crenças e etnias, forçando-as a conviver em países delimitados artificialmente e em função de motivações menos claras, deparamo-nos desde há algum tempo com continentes em fase de ebulição e à beira de explosões irreversíveis.

O continente africano é bem o exemplo dos erros cometidos e prenunciador do que nos poderá custar a insistência numa negação ocidentalizada, como se quanto a isso nenhuma responsabilidade lhe pudesse ser assacada.

A manipulação externa de governos e governantes africanos, como subsidiários de grupos multinacionais ocidentais (que se consideram “clarividentes e superiores”), complementada pelo financiamento alegadamente político e desestabilizador de grupos extremistas, apologistas da implantação religiosa/ideológica pelo terror generalizado e sem fronteiras, transformou-o num continente em guerra, sem liderança e sem futuro aparente.

Esse cenário de guerra, dolorosamente real, vem provocando verdadeiros êxodos suicidários a partir de todo o continente africano, com especial incidência no Magrebe, que numa fuga do terror e da morte garantida, tentam atingir a Europa (como se da “terra prometida” se tratasse) encontrando amiúdes vezes a morte por naufrágio e afogamento (consta que só em 2015 já soçobraram mais de 2.100 almas nas águas mediterrânicas).

As tentativas de” tratar a doença a meio da viagem” têm-se revelado infrutíferas, permitindo que verdadeiras avalanches de desesperados atinjam os seus objetivos de passagem, dando origem a verdadeiros desequilíbrios humanitários em alguns países do sul da Europa (Itália, Grécia, Espanha, …), de onde partem contínuos fluxos migratórios em direção ao rico e “novo Eldorado” do Norte.

Como resultado destas migrações contemporâneas, mais uma vez desencadeadas pela fome e pela inexistência de futuro nos países de origem, propagaram-se “como cogumelos” as tensões inter-raciais e as miragens de “proteção a partir de muros”.

Vários são os governos que, numa tentativa desesperada de apaziguar os seus concidadãos, teimam em erigir muros (Hungria,…), vedações (França, Reino Unido,…) e demais cenários ficcionados que, não garantindo a segurança pelo isolamento, apenas criam condições de desenvolvimento de guetos periféricos de desesperados, que tentacularmente vão minando o “mundo ocidental” que gostaríamos de congelar num limbo de privilégios eternos.

A solução do problema nunca será simples, nem “a busca da chave junto ao candeeiro” se mostrará eficaz, pelo que chegou a altura de coletivamente encararmos a realidade, e os efeitos das interferências internacionais na gestão dos territórios (daqueles que alguns de nós teimam em considerar inferiores…), para lhes devolver a esperança de vida no seu país de origem, mesmo que isso acarrete uma redução dos lucros das multinacionais e o fim dos privilégios das classes governantes suas subsidiárias.

Sentado na areia, junto ao mar, saboreio a sensação de paz e confiança no presente.

 

Até onde estaremos dispostos a ir, neste caminho de negação, para desistir do nosso futuro coletivo?

 

S. Bernardino, 11 de agosto de 2015

 

Paulo Vilela Raimundo

 

 

 

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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