Em período de férias (para os privilegiados, que cada vez são em menor número) os ecos dos conflitos contemporâneos perseguem-nos repetitivamente, quedando-nos em reflecções sobre como aqui chegámos e para onde desejaríamos ir.
A concentração artificial da riqueza global (na mão de parcas centenas de “eleitos”), a explosão populacional dos continentes africano e asiático, o envelhecimento da velha Europa e os interesses económicos que medram em todos os conflitos, crises e tensões, constituem o cocktail perfeito para um novo e potencial conflito mundial que não devemos ignorar.
Como resultado dos múltiplos conflitos de interesses que, desde a era do expansionismo/colonialismo europeu ao fim ao Império Otomano, retalharam territórios ocupados por populações nómadas, de diferentes crenças e etnias, forçando-as a conviver em países delimitados artificialmente e em função de motivações menos claras, deparamo-nos desde há algum tempo com continentes em fase de ebulição e à beira de explosões irreversíveis.
O continente africano é bem o exemplo dos erros cometidos e prenunciador do que nos poderá custar a insistência numa negação ocidentalizada, como se quanto a isso nenhuma responsabilidade lhe pudesse ser assacada.
A manipulação externa de governos e governantes africanos, como subsidiários de grupos multinacionais ocidentais (que se consideram “clarividentes e superiores”), complementada pelo financiamento alegadamente político e desestabilizador de grupos extremistas, apologistas da implantação religiosa/ideológica pelo terror generalizado e sem fronteiras, transformou-o num continente em guerra, sem liderança e sem futuro aparente.
Esse cenário de guerra, dolorosamente real, vem provocando verdadeiros êxodos suicidários a partir de todo o continente africano, com especial incidência no Magrebe, que numa fuga do terror e da morte garantida, tentam atingir a Europa (como se da “terra prometida” se tratasse) encontrando amiúdes vezes a morte por naufrágio e afogamento (consta que só em 2015 já soçobraram mais de 2.100 almas nas águas mediterrânicas).
As tentativas de” tratar a doença a meio da viagem” têm-se revelado infrutíferas, permitindo que verdadeiras avalanches de desesperados atinjam os seus objetivos de passagem, dando origem a verdadeiros desequilíbrios humanitários em alguns países do sul da Europa (Itália, Grécia, Espanha, …), de onde partem contínuos fluxos migratórios em direção ao rico e “novo Eldorado” do Norte.
Como resultado destas migrações contemporâneas, mais uma vez desencadeadas pela fome e pela inexistência de futuro nos países de origem, propagaram-se “como cogumelos” as tensões inter-raciais e as miragens de “proteção a partir de muros”.
Vários são os governos que, numa tentativa desesperada de apaziguar os seus concidadãos, teimam em erigir muros (Hungria,…), vedações (França, Reino Unido,…) e demais cenários ficcionados que, não garantindo a segurança pelo isolamento, apenas criam condições de desenvolvimento de guetos periféricos de desesperados, que tentacularmente vão minando o “mundo ocidental” que gostaríamos de congelar num limbo de privilégios eternos.
A solução do problema nunca será simples, nem “a busca da chave junto ao candeeiro” se mostrará eficaz, pelo que chegou a altura de coletivamente encararmos a realidade, e os efeitos das interferências internacionais na gestão dos territórios (daqueles que alguns de nós teimam em considerar inferiores…), para lhes devolver a esperança de vida no seu país de origem, mesmo que isso acarrete uma redução dos lucros das multinacionais e o fim dos privilégios das classes governantes suas subsidiárias.
Sentado na areia, junto ao mar, saboreio a sensação de paz e confiança no presente.
Até onde estaremos dispostos a ir, neste caminho de negação, para desistir do nosso futuro coletivo?
S. Bernardino, 11 de agosto de 2015
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: