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Crónicas da Serra da Ribeirinha (1)

Quinta, 13 de Agosto de 2015 766 visualizações Partilhar

A serra da Ribeirinha não é um local desconhecido para mim. Já lá fui muitas vezes e até mesmo realizei lá um trabalho de Antropologia Visual, há uns 7 ou 8 anos. Aliás, vivi na sua encosta sul durante cerca de 20 anos e já me tinham indicado, no passado, algumas singularidades da sua paisagem. Mas trata-se agora de aplicar a este local, parcialmente conhecido, uma visão neutra, se possível, isenta desse conhecimento prévio, e passar a analisá-lo através do quadro da fenomenologia, ou seja, “sentindo” mais do que “pensando”.

Nesta manhã ensolarada de domingo, subi e desci os declives voltados a norte, partindo do primeiro quarto de área que já tinha sondado antes, sempre avançando ao longo da linha de cume, em direcção ao nascente e traçando perpendiculares à base a espaços regulares (ou onde existiam rochas para examinar). Pela encosta, voltada para o que agora resta da antiga lixeira, são muitas as rochas, por vezes de grandes dimensões, ainda encravadas na superfície de terreno barrento e em declive, revelando a provecta idade que lhe é atribuída (entre 2 e 4 milhões de anos) e agora coberto de pasto com gado.

Esta vertente, que se avista facilmente da nova Zona Industrial, subindo a partir da área da antiga lixeira, está crivada de rochas semelhantes, pelo menos à vista, às da Serra do Cume onde se encontram os objectos deste estudo. São elas o fulcro da minha atenção. Vendo-as à distância, poder-se-ia afirmar que são iguais às da extremidade oriental. No entanto, ao progredir na sua observação vou notando que afinal não. Pelo menos, na sua superfície, não se distingue um único dos traços que marcam as outras.

Este facto surpreende! Ali mesmo ao lado, na ponta oriental desta mesma Serra estão as outras e aqui nada! Que diferenças poderão existir entre a natureza destas rochas neste local e as da ponta este ou oriental, cheias de pias e de riscos? Á primeira vista, quase nenhumas. Terão que ser levadas a laboratório para aprofundar a sua composição, pois parece que aí poderá estar a razão de ser das diferenças comportamentais de quem as usou. Geólogos terão que as submeter aos ácidos e reactores. No entanto, continuo a pensar que talvez outra resposta esteja à frente dos meus olhos. De facto, mesmo sem os reagentes químicos, percebo que a “maciez” e a superfície lisa e contínua das rochas do lado nascente não se pode (afinal) comparar com a aridez, dureza e textura esburacada cheia de fendas dos basaltos (?) do lado oeste. Será esse o ponto de distinção entre umas e outras? Sem nada saber das causas que levaram à sua utilização dificilmente posso vislumbrar a razão desta escolha. Porque existem pias e riscos num lado da Serra e nada no outro, a poucos metros de distância?

existem várias hipóteses para a diferenciação: Orientação cósmica? Natureza das rochas? Diferenças culturais dos seus autores? Épocas temporais diferentes?

Em qualquer dos casos, o facto de existir uma preferência por determinados locais na Ilha (e aqui neste caso, em particular), pesa na atribuição de intensão na sua escolha: terão sido deliberadamente escolhidos e não obra do acaso.

Antonieta Costa

13/08/2015

 

Colunista:

Antonieta Costa