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A irmã do rapaz dos mergulhos

Terça, 18 de Agosto de 2015 493 visualizações Partilhar

O dia já tinha nascido há algumas horas. O sol tinha batido na janela do meu quarto há algum tempo, só que a noite do dia anterior levava-me ao mais doce minuto que o sono me pedia. Não queria perder minutos para a claridade do dia lá fora. As nuvens já não estavam lá, havia sol e já estavas no redondo berço das nossas vidas. Hoje era o primeiro dia, depois de não estares cá há mais tempo do que devias.

Olhava o oceano, que se mexia a mais do que aquilo que devia. O basalto escorregadio sacudia-me mais um pouco para o salgado do mar. Tivera ido à baixa da Caldeira e o dia ainda não tinha começado como deve ser. A visão estava baça, o paladar comedido, a audição escassa de atenção. Nada estava normal porque fazia tantos minutos, tantas horas e tantos dias, contigo no leste do arquipélago, fora dele.

O tempo avançava para a tarde. O sol começava a esconder-se timidamente, pelo fim do dia e pelo início da noite. A sombra já preenchia quase todos os espaços do lugar dos mergulhos e das conversas com cenário rochoso.

De repente o sol retornou a uma velocidade estonteante. A visão desbloqueou-se, o baço foi-se do olhar. O paladar apoiou-se na vontade de um beijo. O ouvido buscou a voz de quem sentia falta de ouvir. Tudo fazia sentido porque já estavas no centro das minhas atenções, novamente.

Um jovem atirava-se ao mar com vontade verdadeira. Mostrava os dotes pelos mergulhos que esteticamente ia trabalhando. Cheguei-me a ele, apertei-lhe a mão e num sussurro não lhe disse o que queria, mas fica aqui para recordação tardia, se a sua atenção estiver disponível:

- A tua irmã é a minha princesa.

Atirou-se ao mar entre mais um mergulho sumptuoso, pondo no rosto um sorriso salgado, de alegria natural.

 

Colunista:

Emanuel Areias

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