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Crónicas da Serra da Ribeirinha (3)

Quinta, 27 de Agosto de 2015 842 visualizações Partilhar

Paisagens culturais

De momento, procedo à “percepção” fenomenológica desta parte da Serra mas mantenho em atenção que (conforme Silvano indica, citando J. Leal) no estudo de uma cultura, tal como numa paisagem cultural, ”.. o que é escondido tem tanta importância quanto o que é revelado.” (Things we see: Portuguese anthropology on material culture, Filomena Silvano, etnográfica outubro de 2010 14 (3): 497-505).

Neste caso específico, muita da produção cultural foi “escondida” por razões que desconhecemos, e é de admitir que tivesse muito mais importância no passado do que agora. Mas para já, a ”percepção” do que se mantém escondido, presentemente apenas por ignorância, poderá revelar-se estratégico na sua futura utilização, quer como recuperação de um património agora ignorado, quer como incentivo turístico (pela sua notoriedade). Impossível num estudo desta natureza, contar com a colaboração que o conhecimento de tradições relacionadas possa trazer, quer porque as mesmas passaram a ser depreciadas precisamente na altura do povoamento e por influência de correntes de pensamento como as do Renascimento e do Iluminismo, mas também religiosas, quer por se ter perdido contacto com a análise a esse nível de profundidade, ou por nunca se ter feito, em relação a esta paisagem. Porém, por nesse algo “escondido” poder estar alguma explicação, lancemos então mão dessa linha! Seguindo recomendações de Christopher Tilley, um dos pioneiros neste modelo de observação  “… o que lugares e paisagens fazem ao nosso corpo, ou o efeito que têm, é anterior às especificidades do sentido cultural que lhes é dado.” Quer com isto dizer que a noção do que é sentido é pré-reflexiva e necessariamente anónima (isenta de traços culturais), mas comum aos seres humanos e anterior a qualquer resposta cultural. Ou seja, só depois dessa “percepção” obtida pelo corpo são criados sentidos a atribuir ao que se vê.

Assim, essa primeira noção poderá ser recapturada pelo “corpo”, como explica Tilley “… em vez de olharmos os lugares ou paisagens primeiramente como sistemas de sinais, ou como textos, ou discursos que contém sentidos e reflectem identidades sociais de vários modos, podemos olhá-los como agentes que activamente produzem aquela identidade. Por outras palavras, precisamos pensar acerca de paisagens animisticamente, de uma forma idêntica à que gostamos de pensar acerca de pessoas, como entidades que podem e fazem a diferença.” Com este tipo de investigação Tilley tem-se colocado em desalinho com a comunidade científica, não só por repudiar o papel do raciocínio na apreensão deste género de conhecimento, mas por chamar a atenção para aspectos da natureza ainda não estudados “cientificamente” (e portanto, “escondidos” como diz João Leal), ou seja, para o papel da percepção sensorial. Acresce que no presente caso, o que tem sido escondido poderá ser o elemento central do puzzle: a natureza das rochas seleccionadas no passado para intervenção cultural (provavelmente para fins agora desconhecidos). É essa natureza que é “escondida”, no ensino formal... por estar ligada a “superstições”!

Excertos de “From body to place to landscape. A phenomenological perspective” parte do Livro The materiality of stone, autores Christopher Y. Tilley, Wayne Bennett, Edit. Berg, Oxford, 2004, p.31

Antonieta Costa, 27/08/2015

 

Colunista:

Antonieta Costa