Azores Digital

--> Hoje, dia 16 de Novembro de 2018

Crónicas da Serra da Ribeirinha (4)

Quinta, 03 de Setembro de 2015 736 visualizações Partilhar

A pedra furada da Serra da Ribeirinha

Haverá provas da existência na Ilha Terceira de cultos relacionados com pedras? A haver, uma delas seria a existência, em lugares de destaque, de duas “pedras furadas”. De longa tradição Europeia, como “pedras curandeiras”, da qual consta um relevante registo de Ken Dowen (em European Paganism), as pedras furadas que conheço na Ilha Terceira ocupam geografias especiais, das quais apresento aqui a da Ribeirinha. Colocada em destaque, numa paisagem deslumbrante, foi rodeada de várias outras manifestações indicadoras da sua importância. A começar pela rocha maior em que se enquadra e que parece estar provida de canais que conduziriam água para uma pia lateral (agora em parte quebrada). A “pedra furada” apresenta-se na forma de uma escultura lisa, de ângulos arredondados, de onde surge uma abertura trabalhada que a atravessa de lado a lado, na perpendicular, saindo por baixo, num espaço solto da restante rocha. Na sua frente, c. de 5m abaixo, uma pequena pia, funda, redonda. Todo o conjunto assenta num declive acentuado, orientado a sul. Á sua direita, ao fundo, em direcção ao poente, o Monte Brasil. Imediatamente na sua retaguarda e à esquerda, ligado à pedra principal, estende-se por c. de 4m uma espécie de “lençol” quase horizontal, todo incrustado de profundos riscos. O conjunto, pela particularidade do seu design, parece enquadrar-se no tipo de fenómenos que Dowen descreve como ligado a um importante culto que fará parte do folclore norte europeu:

“Stones with hollows or holes in them invite special use, notably for healing. Grimm (1876:ii.976) cites an instance in Poitou where weak children are placed in the hollow of the stone of Saint Fessé (‘tired’?) to regain their strength.19 In another case, at Minchinhampton (Gloucs) there is a stone, the ‘Long Stone’, with a hole at the bottom, ‘through which children used to be passed for the cure or prevention of measles, whooping-cough and other ailments’.20 Another use for hollow stones, found in Lithuania, Ireland and Wales, is to collect and hallow rainwater, which might then have healing properties.21 Such stones might have symbolic force too: sterile women in the département of Ille-et-Vilaine (it includes Rennes) apparently used to rub themselves against hollow stones (Reinach 1908:407).” (Ken Dowden, European Paganism, the realities of Cult from Antiquity to Midlle Ages, Routledge, London, 2000)

Em Portugal, estas pedras ainda podem ser vistas em largos de velhas Igrejas (antigos santuários pagãos), às quais os fiéis se dirigem na forma de culto, talvez com o mesmo tipo de maleitas (crianças fracas, sarampo, bexigas, tosse convulsa, esterilidade feminina, reumatismo, etc.). Em geral, estes locais destacam-se por características especiais de “comunicação” e vão gradualmente estabelecendo a sua “sacralidade”, dando origem ao mito que os institui e resguarda no tempo.

Quem terá criado e usufruído este da Ribeirinha? O outro, que fica na Grota do Medo, foi disfarçado (ou escondido?) dentro de um torreão.

Antonieta Costa

17/08/2015

 

Colunista:

Antonieta Costa