A vertente norte, na sua extremidade oriental
Afinal havia mais “património desconhecido” a descobrir na parte norte! Dependurados no alto destas escarpas, pias, inscrições, “marcas de corte”, etc., vestígios de um passado desconhecido continuam a surgir-nos debaixo dos pés, na caminhada para oeste que encetámos numa manhã de sol radioso, como têm sido as deste verão. Com um grupo de três parceiros de exploração, avançámos a partir dos últimos achados, na extremidade este, em direcção a oeste, mas pelo lado norte da Serra e próximos da linha de cume. Após alguns sinais dispersos nas rochas - pequenos riscos, traços rectilíneos (e também alguns curvos), pequenas pias por vezes isoladas na extremidade da rocha sobre o precipício, precederam o achado principal: importante conjunto de rochas com grandes pias interligadas por canais, aqui rodeadas de grande quantidade de inscrições. Esta descoberta veio abalar o que eu pensava ser uma constante desta paisagem da Serra da Ribeirinha pois, ao contrário dos outros, todo este conjunto está voltado a norte, o que quer dizer que esse tipo de orientação provavelmente não terá contado na decisão da escolha do local. Que particularidades da paisagem terão sido ponderadas, então? E por outro lado, que género de metáforas estão imbuídas na sua linguagem? Estarão igualmente ligadas a formas antropomorfas? (algumas parecem-se com cabeças humanas, mas terá essa semelhança contado para a escolha do espaço, como parece ter acontecido com a Serra do Cume?). Também as rochas deste lugar em particular são bastante claras indicando diferenças da sua composição. Será esse o factor decisivo? Tentando abranger o fenómeno na sua dimensão holística, no conjunto que poderá formar com a Serra do Cume e também com a Grota do Medo, pondero o conselho de Tilley: “Para verdadeiramente compreender o significado da paisagem, quer no passado, quer no presente, requer um conhecimento interno do significado do lugar em relação à maior dimensão da paisagem que é precisamente estar por dentro, identificar-se com ela, pertencer a ela, atribuir-lhe valor e significado, e compreender relações e interconecções.” Christopher Tilley, “Round Barrows and Dykes as Landscape Metaphors” Cambridge Archaeological Journal 14:2, 185–203 © 2004 McDonald Institute for Archaeological Research DOI: 10.1017/S0959774304000125 Printed in the United Kingdom.
É o que tento fazer, mas sem nenhuma garantia de estar no caminho certo. Por outro lado, ainda não posso contar, por parte da geologia, com testes químicos sobre a composição e grau de degradação das rochas, nem da parte da arqueologia, com os seus instrumentos de pesquisa, que venham testar o que a fenomenologia permitiu encontrar e caracterizar.
Mas a coincidência da localização destes achados com as manchas de traquites (identificadas pela cor rosa) presentes na Carta Geológica da Ilha Terceira, foi um importante dado da parte da geografia, a satisfazer a certificação: definitivamente, não se trata de uma casualidade, mas sim de um uso deliberado, não sei se como “metáfora paisagística” (segundo Tilley) mas que urge assinalar. Sobretudo, facilitar essa operação de tradução aos interessados (que são muitos: talvez todos nós?), informar sobre a sua existência e localização precisa, instruindo formas de acesso a acordar com os donos, balizar, proteger e também, por que não? Rentabilizar - através do turismo e, especialmente, da fruição cultural a que se junta o ensino.
Antonieta Costa
22/08/2015
Colunista: