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Como est o Carnaval ?

Quarta, 30 de Janeiro de 2002 663 visualizações Partilhar Como est o Carnaval ?

Quem agora assiste e participa nas festas de Carnaval dificilmente acredita que este j foi um ritual religioso

Mas no conceito de religio que os nossos antepassados dos tempos das cavernas tinham, quando comearam a compreender a maravilha da propagao da vida atravs do lanamento de sementes terra, esse ritual era religioso. Tal como este, alis, muitos outros rituais, na altura eram considerados como potenciando a fertilidade das plantas. O Carnaval um deles. Vejamos porqu.
O Ano Agrrio, ou o Tempo Sagrado, comeava em Maro. A razo de ser era a de que dos resultados das sementeiras dependia a vida dos grupos recentemente sedentarizados e sujeitos s grandes invernias das eras glaciares, que assolaram a Terra.

No Hemisfrio Norte e na Europa, durante todo o ms de Fevereiro procedia-se a um grande nmero de rituais tendentes a propiciar o correcto estado de esprito da populao para a sua participao na grande funo do nascer da vida. Eram necessrias, entre outras diligncias, purificar as pessoas dos males cometidos durante o estado profano da Terra: o Inverno. Sem esta purificao as sementeiras poderiam gorar-se.

Com a finalidade da purificao procedia-se a vrios actos: sacrifcios de privao de comida (jejuns), castigos corporais, separao sexual dos pares, morte de animais (e mesmo pessoas) sacrificados aos deuses, reviso de vida, com o propsito de impedir os actos socialmente reprovveis, e ainda a representao da desordem.

Com as alteraes impostas aos calendrios e a adopo do calendrio gregoriano, algumas destas funes foram deslocadas do seu tempo, mas outras mantm-se, permitindo observar alguns vestgios do sentido anterior.

Toda esta preparao tinha por finalidade conjugar as foras individuais num esforo nico de participao na tarefa de fertilizao da Terra.

A separao sexual (da qual restam as celebraes dos amigos, amigas, compadres e comadres, para alm de outras formas de segregao sexual menos visveis) tinha a ver com a preparao dos indivduos para uma orgia sexual (o carnaval propriamente dito) que tinha incio com o primeiro dia das sementeiras e era entendida como influenciando positivamente a capacidade germinadora das plantas. Para tal, o acto sexual deveria ser praticado nos campos.
Em conjunto com este acto, deveria ser provocado o riso. O riso ritual, acontecendo prximo das reas semeadas era igualmente considerado necessrio. A incit-lo proferiam-se ditos jocosos, obscenidades e praticavam-se actos grotescos.

Ainda no h muito tempo, e na Igreja catlica, na Pscoa, os padres diziam graas e proferiam palavras obscenas nos plpitos para provocar o riso. As mulheres Gregas percorriam os campos desnudando-se e proferindo obscenidades, a incitar a germinao das plantas.

Um ltimo acto prprio desta poca e visando o mesmo fim era o da inverso da ordem, ou mesmo a provocao do caos, simbolizando a degenerescncia da semente, o seu apodrecimento, como fase inevitvel, antes de dar origem nova planta.

Muitos destes actos e respectivos sentidos esto ainda presentes no Carnaval, acrescendo que o da reviso social se apresenta com evidncia e uma certa originalidade na Ilha Terceira, nas Danas e Bailinhos de Carnaval. Atravs deles os grupos sociais procedem a uma total reviso de vida, apontando e criticando os desmandos nos Bailinhos, face aos valores tradicionais, expressos nas Danas.
As pessoas ainda procuram provocar o riso e desnudar-se. As obscenidades desta poca ainda superam as do quotidiano e a licenciosidade brota espontaneamente. Quanto inverso da ordem, talvez por esta ser menos impositiva, no ser to notada.
Uma vez por outra o Rei Momo sacrificado, para o bem da humanidade.

Antonieta Costa, 29 de Janeiro 2002

Colunista:

Antonieta Costa