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Profissões

Quarta, 23 de Setembro de 2015 447 visualizações Partilhar

Era miúdo. Observava tudo à escala gigante. Quando estava na varanda de casa, que tinha como horizonte visual toda a Rua dos Canos Verdes, nos Quatros Cantos, freguesia da Sé, cidade de Angra do Heroísmo, tinha a impressão de ser confrontado com o resto do mundo.
Nos vestígios da memória, encontro, nos Canos Verdes, atividades que pareciam abraçar todos os ofícios que um miúdo de seis/sete anos imagina existir.
Uma mercearia, onde os trocos que restavam das “voltas à mãe” davam para comprar cromos da natureza e de futebol com a esperança concentrada em cadernetas e bolas de borracha.
Um estofador, onde os velhos sofás de fazenda ou napa ganhavam fôlego para novas andanças nos lares domésticos povoados de crianças traquinas.
Mais para o fim da rua, para quem vai em direção à Rocha, o alfaiate que fazia os fatos à medida para as primeiras comunhões, casamentos e dias de festas do Império.
Lembrança também para um carpinteiro, um encadernador e, quase a chegar à outra ponta, com mira no Alto das Covas, uma oficina de automóveis, inacessível para quem nunca chegou a rico por manifesta falta de dinheiro.
Quando entrei para a primária, na Escola Infante D. Henrique, parecia que tudo atingira o dobro do tamanho.
Ao dobrar da esquina, um latoeiro, a loja de artigos escolares “O Pinóquio”, uma praça de táxis e uma imensidão de carros sempre a subir e a descer. Afinal, a cidade tinha mais ruas…
As coisas não se compravam já feitas. Onde hoje é o hiper, só existiam vacas a pastar.
Por isso, as pessoas tinham de fazer pela vida, já que o rendimento mínimo era garantido apenas com trabalho máximo.
O leiteiro batia, todos os dias, à porta dos clientes. O calçado passava pelas mãos hábeis dos sapateiros vezes sem conta.
Os correeiros, os oleiros, os artesãos em vimes ocupavam espaço laboral.
Os vendedores ambulantes proliferavam. Peixes, doces, favas, flores e uma panóplia de outros artigos com pregões adequados a cada nicho de mercado e freguês.
O mata-ratos era constantemente chamado ao serviço. Os guarda-chuvas, daqueles mesmos fortes que duravam anos a fio, iam sempre a arranjar.
Espaço memorial (embora muito longínquo) para o senhor que, numa carrocinha empurrada à mão, aparecia à vizinhança para amolar facas, tesouras e afins, além de gatear alguidares de barro.

Os sapatos ganhavam brilho à conta de engraxadores que ascendiam à categoria de figuras citadinas e para o inesquecível vendedor ambulante Domingos Praça Velha, com escritório aberto para o céu nos degraus da Igreja da Sé.
Entretanto, passaram-se uns bons anitos e, das profissões referenciadas nesta crónica, poucas serão as que sobrevivem.
São existências alinhavadas por devoção e habilidade natural para “o que se nasce”. Gente assim não se encontra no supermercado, espaço que remete a filosofia de vida para o consumismo.
Os filósofos, como tão bem escreveu Augusto Gomes, gostam mesmo é da rua.

 

Colunista:

João Rocha

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