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Crónicas da Serra da Ribeirinha (7)

Quinta, 24 de Setembro de 2015 732 visualizações Partilhar

Características das “marcas” deste lugar

Para além das pias, em grande quantidade e preponderantemente de forma cilíndrica, das “marcas de corte” e da “Pedra Furada”, esta última relevante na sua função cultural, estão vários sinais diferentes dos existentes nos outros dois sítios aqui em estudo. A paisagem, magnífica, centrada sobre os Ilhéus das Cabras e Angra mas abrangendo toda a “roda da Ilha” (como diria Nemésio), desde o Porto Martins a S. Mateus, desafia-nos a imaginar qual e como seria ao tempo desta actividade: que veriam os autores destas pias e marcas? E porque escolheriam os picos mais altos para as fazer? Teriam optado por este local devido à paisagem?

Neste caso, a paisagem, como conceito complexo, ao englobar um vasto número de casos, todos relacionados com o ambiente que nos cerca e a sua percepção através dos cinco sentidos, teria outro significado. Dada a abrangência do termo, este costuma ser dividido em dois tipos principais: as paisagens naturais e as culturais. Até que ponto seriam paisagens culturais as que se avistavam desta zona da Serra? De qualquer modo, o topo das montanhas costuma ser a parte em que se consegue ainda encontrar paisagem natural (ou o mais próximo possível dessa categoria). Seria essa que procuravam?

Porque a paisagem é uma categoria em constante modificação, quer por acção humana, quer ambiental, por vezes é difícil diferenciá-las, mas no caso desta Serra, julgo que pertence à categoria mista, com partes naturais e partes culturais. Para mim, que passo aqui muitas horas, as partes que poderiam ser classificadas como paisagem natural, porém, cada vez mais se transformam em paisagens culturais, cheias de pequenos e pouco evidentes sinais de intervenção humana, que embora repletas de incógnitas quanto aos possíveis autores, não se confundem com a acção do tempo.

É assim que, por entre enigmas, fui avançando na leitura deste espaço deixando-me subjugar pela sua majestade, cada vez mais convencida de que poderia ter sido ela a nota de distinção e de preferência, talvez não por si própria, mas pelas vantagens que lhe estão apensas, como sejam: frente à sua magnitude, uma maior capacidade de introspecção e acesso à “unidade de consciência” consigo e com o todo, em fuga ao pensamento lógico. É neste género de lugares que se encontra a liberdade necessária para tal. Na Ilha Grega de Creta, por exemplo, tem sido activada a investigação dos “Peak Sanctuary”, muito abundantes aí e de certa maneira, descurados até recentemente, devido à preferência pelas artes que caracterizou os estudos arqueológicos, descurando os restantes indícios de cultura. Em recintos que, na opinião de peritos, eram consagrados a exercícios espirituais (ou sagrados), a céu aberto, constata-se a preferência pelos topos, áridos e montanhosos, que ficaram marcados pela oferta de objectos votivos (lá depositados), aliás uma constante em muitas partes do globo. É face à semelhança das preferências reveladas nesse passado por sítios tão inóspitos (como “o Castelo” da Ribeirinha, onde se concentra parte deste património), que a foto do Santuário de Prinias, tão idêntico ao pequeno pico de cá, me parece perturbante, por generalizar o feómeno.

 

Colunista:

Antonieta Costa