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Portugal à conversa

Quarta, 30 de Setembro de 2015 621 visualizações Partilhar

Portugal está mesmo para falatório. Os motivos são mais do que muitos: as eleições legislativas, a persistente crise económica, a prisão domiciliária de Sócrates e as peripécias habituais à volta do futebol.

Os programas inseridos no segmento da denominada voz da opinião pública, sobretudo aos níveis das rádios e televisões, não se queixam da falta de pano para mangas para entreter gente danadinha para abrir boca e divagar, sem medo de resfriados, nas janelas do mundo.

No intervalo dos pontapés na bola, o tema preferido é claramente a situação financeira do país.

Aí, abrir-se-á espaço para doutas considerações, desde a Tia Maria da Pureza do Entroncamento, passando pelo reformado Anacleto Matias e terminando no doente bipolar Teotónio Y.

Vamos começar, como manda o figurino e a boa educação, pela senhora. A Tia Maria Pureza, no intervalo do programa do Goucha e depois de duas colheradas rápidas de água na feijoada, ganha coragem e dispara de rajada: “A culpa é toda dos políticos, que não sabem gerir o país. Se fizessem compras na mercearia da Arlinda como eu, sabiam bem o que é esticar o dinheiro pelo mês inteiro. Se me mexem mais na pensão de viuvez, sou capaz de cortar-lhes as mãos com a faca grande que comprei nos chineses. Posso falar um bocadinho de futebol? (…) Nunca gostei do cabelo do Jorge Jesus e o Cristiano Ronaldo era moço para se casar com a minha Esmeralda, que anda com um “tóxico-independente”. Beijos e abraços para a minha madrinha de casamento a viver na França”.

Anacleto Matias, especializado em tempos mortos, transmitirá uma vivacidade própria à emissão: “Não há dinheiro porque esta malta nova é uma malandragem da pior espécie. No meu tempo é que era a valer. Cheguei a trabalhar 25 horas por dia. Já tenho saudades do Salazar. Quero lá saber do Passos, do Costa e da Merkel. Comigo ninguém leva votos. O Sócrates quer é pizzas. Agora vou ter de desligar. Preciso de dar milho aos pombos”.

O tempo previsto para a entrada em direto dos opinadores há muito que foi ultrapassado, mas Teotónio Y, internado num hospício há mais de 20 anos, faz questão de não ser calado pela publicidade.

Excecionalmente, e com o realizador à beira de um ataque cardíaco, é concedida via aberta ao senhor Y, temendo-se uma conversação mais dilatada do que os discursos de Fidel Castro.

Porém, nada podia ser mais sintetizante: “E o louco sou eu?”, questiona Teotónio Y, que não gosta de futebol e nem se lembra de ter um tostão no bolso.

 

 

joao.rocha@portugalmail.pt

 

 

Colunista:

João Rocha

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