Fim desta secção
Ao longo de quase um ano desenvolvi na Serra da Ribeirinha a fase relativa à “prospecção”, dentro do projecto de investigação em decurso. Não quer dizer que tenha terminado, ou que tenha demarcado tudo o que possa lá haver, mas sim que foi estabelecida com a paisagem uma relação do tipo fenomenológico, ou seja: foi livremente observada nas formas discordantes (quer da natureza, quer da cultura europeia), em toda a área ao longo do cume e em alguns flancos, onde pareceu ser mais provável a ocorrência dos sinais antrópicos em estudo neste projecto.
Tratou-se de ponderar e destacar não só as marcas lá deixadas por entidades culturais específicas e objectivas (embora desconhecidas), mas também as hipotéticas intenções conducentes a esses actos, que lá possam manter-se impressas. Embora sumariamente observada, deu para definir o estilo e a natureza da intervenção humana no local, por comparação com os já encontrados nos outros dois em observação. Impõem-se agora deliberações relativas à fase seguinte, na qual estão previstos não só a apresentação do material obtido às comunidades vizinhas, como também o diálogo com os interessados, pois (de parte a parte) são necessários complementos e ajustes na informação. Tal como já fiz na fase anterior (relativa à Serra do Cume na Freguesia de S. Sebastião), informei agora a Junta de Freguesia da Ribeirinha e também a Biblioteca Pública de Angra, solicitando disponibilidade para o estabelecimento deste contacto com a população. Para que os resultados desta investigação revertam, também, em aproveitamentos de ordem prática (que estão incluídos no projecto em desenvolvimento), é necessário invalidar a crença (mundialmente) estabelecida sobre a impossibilidade de terem existido outras ocupações desta Ilha, anteriores à Portuguesa.
Só desfazendo esse obstáculo poderão os “objectos ideais” do pensamento serem substituídos pelos “objectos reais” que configuram a nova verdade da Ilha, em processo de metamorfose de identidade. Será através da legitimação e integração da actual relação com estas paisagens, que poderá surgir a aceitação do passado que nelas deixou marcas, e no qual a terra terá sido “sacralizada” numa comunicação com a espiritualidade (seja ela qual for). Poderá assim restabelecer-se uma linha de acesso à sua estrutura de “significação”, assim como à sua essência. Esse parece ser o caminho necessário, para o qual se impõe um diálogo quotidiano com a nova realidade, em moldes que permitam afastar os avatares impostos (pela ciência, a religião, a história). Todo esse processo lento de interlocução (interna e externa) deveria preceder a abertura ao turismo exterior, para que não se dê o caso de nos apresentarmos como descrentes daquilo que propomos: primeiramente aventa-se que nos tornemos turistas na própria terra… mas turistas conhecedores e informados, embora em permanente aprendizagem.
Todo esse percurso, porém, está sujeito às delongas do período de decantação da nova situação e do seu ajuste personalístico, do qual virá a depender o (melhor ou pior) aproveitamento do que possuímos. Contudo, esta fase de normalização requer uma actividade e uma visibilidade que não estão a acontecer. Será que se espera que do actual imobilismo possa surgir algum benefício? Convém lembrar que, como alternativa, apenas resta voltar à indeterminada e permanente espera por um “Godot”.
Antonieta Costa
27/09/2015
Colunista: