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À Esquerda?

Segunda, 05 de Outubro de 2015 782 visualizações Partilhar

À semelhança de outras eleições do passado, a maioria das forças partidárias presentes a sufrágio vieram já a terreiro proclamar as suas vitórias, vangloriando-se de “contra tudo e contra todos” terem superado todas as expectativas...

Curiosamente o único partido assumidamente perdedor constitui, de facto, o principal protagonista do nosso futuro coletivo, cabendo-lhe a ele decidir a estratégia de governação para os próximos anos.

Acordámos todos com algumas certezas incontornáveis, contrastantes com a necessidade imperiosa de constituirmos um governo credível (interna e externamente) e realmente representativo do povo português.

Os resultados oficiais disponíveis dão a vitória minoritária à coligação Portugal à Frente e a maioria absoluta aos que rejeitam a continuação das políticas neoliberais dos últimos quatro anos, onde muito do que foi prometido em campanha eleitoral foi negado, por culpa (generalizadamente) dos outros…

Sendo a política considerada como a “arte do possível”, não deixa de ser curioso o facto de ter ficado na mão do PS, a decisão sobre o que virá a acontecer, optando entre a aproximação ao “centrão” com a coligação PSD / CDS e uma coligação, à esquerda, com o BE e a CDU.

Para ambos os cenários, e há que ser intelectualmente honesto, as macro medidas do futuro governo já se encontram maioritariamente  decididas  porque comprometidas pelos acordos assinados pelos  três partidos do dito “arco da governação” (PDS, PS e CDS), tornando-se no cerne da questão a decisão quanto aos “detalhes” (como muitos gostariam de os apelidar) e que, como tudo na vida, fazem toda a diferença!

Como se não bastasse, depara-mo-nos com uma liderança socialista algo fragilizada internamente, pelo que qualquer passo a dar será tendencialmente arriscado.

A verdade é que quase três milhões de portugueses (50,87% de votantes no universo PS/BE/CDU) disseram não à continuidade das políticas da última legislatura, contando com (até agora) 121 deputados fidelizados aos três partidos mais representativos à esquerda do espectro político-partidário português.

Conseguirá António Costa pacificar internamente  o seu partido e ainda encontrar condições para, assumindo os compromissos internacionais que o seu partido subscreveu, liderar um governo de esquerda em parceira com o BE e a CDU?

Será possível inverter uma política governativa generalizadamente vocacionada para a recapitalização da banca e em defesa dos grandes conglomerados empresariais e financeiros, para a direcionar para a defesa dos direitos dos cidadãos, no respeitante à saúde, à educação, à justiça, …, ao estado social conquistado desde abril de 74?

Bem que nos foi antecipadamente comunicada a indisponibilidade do Presidente da República em estar presente nas comemorações do 5 de outubro, alegando carência de tempo para analisar os resultados eleitorais e decidir sobre o futuro próximo…

Pois, que essa mesma reflexão e a efeméride que hoje se comemora nos presenteiem com decisões coerentes e condizentes com a vontade do eleitorado (ativo), não menosprezando o descrédito e descontentamento revelado pela maior percentagem de abstenção de que há memória em eleições legislativas em Portugal (43%), comemorando-se assim o centésimo quinto aniversário da Implantação da República Portuguesa com um passo franco e coerente com o nosso passado coletivo, escolhendo-se um governo realmente representativo do povo português e que, cumprindo as suas obrigações internacionais, não permita que os seus concidadãos sejam simples referencias estatísticas ou em meras moedas de troca nos cenários internacionais.

Chegou a hora de, credibilizando os símbolos nacionais e as suas estruturas governativas, evitar o distanciamento entre os representantes governativos e os seus eleitores, tornando-os em verdadeiros defensores dos anseios e direitos de todos nós, dignificando a República e a democracia em que insistimos em viver.

 

Reflitamos sobre o 5 de outubro de 1910!

 

 

Angra do Heroísmo, 5 de outubro de 2015

 

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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