Se o caso não fosse demasiado sério, pensaria que a comunicação aos portugueses efetuada ontem pelo Presidente da República seria uma recriação do famoso jogo de mesa Monopólio.
Se bem que na sequência dos resultados eleitorais, em que a coligação PSD/CDS foi a força partidária sujeita ao sufrágio mais votada (embora não tenha obtido nem a maioria dos votos, nem a maioria dos deputados eleitos), era espectável e plenamente justificada a indigitação de Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro, com a responsabilidade de tentar constituir governo para os próximos quatro anos.
O discurso adotado e que, extravasando a representatividade de todos os portugueses que se esperaria de um Presidente da República, assumiu a leitura facciosa do cidadão Cavaco Silva, chantageou e ameaçou o país, com algo semelhante à falência anunciada e inevitável, como punição da “justiça divina dos mercados”.
A menorização alargada a todo o eleitorado (insinuando que o que está em jogo não é entendível pela população), a ameaça assumida contra a maioria dos votos expressos nas urnas (que, independentemente das orientações ideológicas, estão unidas na rejeição à continuidade da política governativa da última legislatura) e a afirmação inexplicável de que a última palavra a dizer será a sua… indicia uma real afronta à democracia lusa e uma chantagem clara contra o parlamento de um modo geral e aos deputados eleitos de um modo particular.
Talvez fosse confortável para alguns que, coletivamente, nos esquecêssemos das promessas não cumpridas do governo cessante; dos compromissos internacionais assumidos por estes sem nossa validação; das medidas governativas que foram prejudiciais aos portugueses e favoráveis aos grandes grupos económicos… enfim, que por medo disséssemos: voltem, estão perdoados!
Mas a dura realidade é que, seja qual for o futuro, este não será fácil e estará altamente condicionado pelos acordos internacionais anteriormente firmados pelos partidos com a maioria da representatividade parlamentar (PSD, PS e CDS) e sujeito a um verdadeiro garrote económico imposto pela troika e pelos mercados.
Com todo um discurso a roçar a “democracia do partido único” Cavaco Silva acabou por presentear o hipotético governo de coligação à esquerda com um impulso muito mais favorável e esclarecedor, do que os partidos à esquerda da coligação PSD/CDS almejaram conseguir desde 4 de outubro.
Conseguirá Cavaco Silva provocar cisões dentro do grupo parlamentar do PS e originar o “voluntarismo” de oito “queijos limianos”?
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