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A Terceira no Mundo (1)

Terça, 27 de Outubro de 2015 925 visualizações Partilhar

É pura fantasia pensar que o caso das descobertas de espólios polémicos na Ilha Terceira possa ser fruto de um acaso (quiçá ilusão?), de semelhanças com algo que poderia ser (mas não é…), ou qualquer equívoco semelhante. Não. Não se trata de engano, nem mesmo de um quadro isolado: como ele existem agora muitos, em todo o mundo. Por exemplo, o da descoberta de Gobekly Tepe, um complexo de templos megalíticos com mais de 11000 anos, exibindo perfeitos baixos-relevos de imagens de animais, num deserto do sul da Turquia, que é apontado como o mais genuíno destes acontecimentos, devido ao facto de permanecer “ignorado” da ciência desde a sua descoberta em 1964. E este silêncio deve-se, provavelmente, ao facto de pôr em questão não só as datas que enquadravam a explicação do processo de desenvolvimento da Humanidade, as quais indicavam 5000 anos para as Pirâmides, explicando a sua natureza religiosa (túmulos?) como tendo surgido em virtude de excessos de economia provenientes das férteis margens do Nilo, assim ligando esse surgimento do “sagrado” à condição económica existente. Porém, ao verificar-se que Gobekly Tepe, para além de revelar esse erro histórico de datação, se situa no meio de um deserto, que mesmo que não fosse seu contemporâneo, estaria afastado de centros civilizacionais, ficou-se sem explicações que permitissem o traçar de uma ponte entre o conhecimento anterior e a situação actual, deixando em “suspenso”, esse vácuo do saber ou do conhecimento do mundo (gestalt).

A relutância institucional perante o estudo de Gobekly Tepe deverá ser entendida como uma incapacidade da sociedade e seus representantes em ultrapassarem esse vazio criado pela revelação de um erro epistemológico. Mas a perplexidade resultante pode tornar-se catatónica, impedindo o movimento, como é o caso.

De igual modo, as dificuldades expressas pelo Governo Regional dos Açores na aceitação do estudo dos achados arqueológicos da Ilha Terceira, terão por base, entre outras razões, não só a dificuldade do abandono de teorias formadas sobre a travessia do Atlântico e formalmente apresentadas como matéria curricular, ao longo dos anos, cimentando uma visão do mundo (gestalt), mas também o fato de estes achados, como forma de contestação, terem um aspecto tão “primitivo”, estarem tão escondidos (que exigem o esforço de sair do gabinete, solicitar algum guia, calçar botas de campo, etc.) e aparentemente revelarem um parentesco simbólico tão pouco “português”, que o vazio de conhecimento que deixam acaba por se tornar aparentemente intransponível e/ou ilógico. É em circunstâncias como estas que se torna relativamente fácil iludir a opinião pública e justificar deixar correr o tempo. Até porque qualquer pessoa (excepto um perito) que veja apenas uma parte destes espólios fica na dúvida sobre o seu valor, tão esbatidos e insignificantes podem parecer, isoladamente. E como raramente alguém se dá ao trabalho de percorrer todos os sítios em estudo, para além de não ser possível conhecer o que está escondido (por proibição de proceder a escavações), nem descobrir outras facetas dos mesmos, poucos são os que têm a real percepção da vastidão imensa das provas existentes. Este parece ser o lado manifesto da questão. Porém, tal conjuntura e a resultante hipotética catatonia não podem ir além do dever institucional do compromisso estabelecido para com um povo, na defesa do seu património! Será o avanço para essa segunda fase do processo que está a demorar, por ser difícil de concretizar? Ou haverá outras razões? Esclareçam-nos!

Antonieta Costa 27/10/2015

 

Colunista:

Antonieta Costa