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O caminho mais fácil…pelo preço mais alto

Sábado, 31 de Outubro de 2015 709 visualizações Partilhar

Não chega a ser novidade que o conhecimento do nosso passado distante ou recente e o reconhecimento das motivações e valor a ele associado serão o principal garante da sua defesa e preservação.

Há muito que se vêm percorrendo os caminhos da inventariação e estudo das múltiplas características da nossa sociedade e, sejamos justos, o pouco que se vem preservando resulta essencialmente da identificação com o bem, que os diferentes povos associam ao património cultural que os define e aglutina.

De toda a multiplicidade de facetas que a cultura e o património assumem, o património imóvel é dos mais visíveis e dos mais perecíveis (em caso de negligência e/ou desconhecimento do seu valor).

Em boa hora, a delegação regional da Ordem dos Arquitetos entendeu, em defesa dos interesses do arquipélago e do país, promover a inventariação do edificado contemporâneo (posterior a 1950), do qual resultou o Roteiro de Arquitetura dos Açores (composto por 51 peças de arquitetura a respeitar).

Esta seleção alegadamente abrangente e fundamentada, deveria no seu cerne valorizar a profissão de arquiteto; divulgar e esclarecer a importância das obras e das suas respetivas linguagens; e ter como objetivo final a sua preservação no tempo e no espaço onde se inserem.

No mundo globalizado onde vivemos facilmente se abre mão do que não é valorizado ou conhecido, independentemente do seu valor intrínseco e da singularidade do bem em risco.

Para que esta iniciativa meritória não acabe como mais um simples catálogo de “vaidades”, no qual o reconhecimento só é atribuído a quem concorre, deverão ser adicionados outros projetos, que por serem de autoria de projetistas já falecidos ou que simplesmente não puderam (ou não quiseram) candidatar as suas obras, não deixam de constituir peças de relevante interesse patrimonial a divulgar e preservar.

Não esqueçamos que alguns desses criadores (João Correia Rebelo / Estalagem da Serreta; Nuno Teotónio Pereira / Edifício da CGD da Horta; Chorão Ramalho / Edifício da Segurança Social em Angra do Heroísmo; Eduardo Souto Moura / Complexo Habitacional das Sete Cidades… e outros mais) foram os verdadeiros paladinos na luta pela construção de imóveis modernos e/ou contemporâneos e que algumas dessas peças (como por exemplo a estalagem da Serreta) correm o risco de simplesmente desaparecerem, sem que o facto de algumas poderem ser classificadas como imóveis de interesse público lhes valha.

Se o objetivo é agir, preservando o património edificado contemporâneo através da divulgação, a hora de atuar (corporativa e civicamente) é chegada!

 

Terra-Chã, 29 de outubro de 2015

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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