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A aventura da escrita

Quarta, 11 de Novembro de 2015 699 visualizações Partilhar

Quando nos aventuramos na escrita é o mesmo que viver uma aventura na vida. Sobretudo, começamos por um diário e nele metemos tudo o que vivemos, desde do primeiro beijo, ao colo dos pais, da crise existencial pelos efeitos da puberdade à malcriação efémera, pela barreira que separa um simples jovem de um adulto que faz por não compreender.

E avançamos. Vamos mais longe na aventura. Moldados pelas dúvidas que nos tomem a razão, idealizamos fantasias e vivemos sonhos, criando histórias aprazíveis ao gosto de quem nos lê. De uma simples dúvida, tornamo-nos filósofos de nós mesmos e sem nos percebermos, tornamo-nos já filósofos dos outros.

Um simples retrato de uma vida na escrita passa também pelo pessimismo de uma crise ou de um conjunto de crises, que deixam os diários e passam a exposições orais. Falamos com um amigo imaginário, contra uma parede ou em frente de um espelho, assumindo que aquela amizade é a mais sincera de todas e a que melhor nos entende. Deixamos o imaginário, sempre amargurados com o desenvolvimento das hormonas. Essa germinação não só faz crescer a excitação pela descoberta dos mundos novos, como também idealiza um elevado grau de imposição face aos outros, por meio de ideias que temos. As teorias eloquentes.

Teoriza-se sobre tudo. Ganha-se uma dimensão filosófica extraordinária, e dos pensamentos que assumimos, fazemos frases vistosas aos outros para depois servirem como legenda de fotografias nas redes sociais. Enchemos cadernos de frases bonitas e que ficam na retina.

A certa altura já queremos ser velhos. Discutimos com os mais velhos sobre aquilo que só a experiência pode explicar, mas para nós, somos os explicadores natos de tudo. Achamo-nos abençoados por sabedoria intacta, onde não há lugar à ignorância. E escrevemos sobre esses temas chatos, que ninguém da nossa idade gosta de ler. Também os que deviam ler, não gostam, porque somos novos a escrever sobre aquilo.

Depois a autocrítica. A noção do perigo que é a aventura de escrever para além do limite da decência. A comprovação total de uma mentira que nós próprios somos, quando decidimos viver uma aventura na vida. A autocrítica atroz. Os textos corrosivos acerca da sociedade estranha ao indivíduo e ao pensamento livre, surgem como uma inevitabilidade. As noções de moral que devem ser dadas, só que a (auto)crítica de ser aquela pessoa a dar, quando isso devia passar por uma inculcação de valores familiares e depois do Estado – no sentido apenas e só de moralizar. Porque o indivíduo é livre e pensa por si. Antes deve refletir.

Ou se ganha ou se pensa que se ganha consciência política. Fala-se sobre isso, projetando ideias de um país mais liberal, na projeção do indivíduo como elemento central de si mesmo, e mais conservador, nos valores que deve cultivar. Ou o completo oposto se pensa – uma sociedade igualitária, progressista nos valores. Aquela dúvida existencial mais agressiva.

No fim, porque o fim é este, e não há evolução – recomeça o processo. Volta-se ao diário porque é nele que a beleza da aventura da vida reside. A aventura da escrita habita na interiorização, que não deve passar pela exteriorização. Exteriorizar aos outros é vender ideias e ser comercial. Interiorizar é a verdadeira forma de ser poeta.

 

Colunista:

Emanuel Areias

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