Sendo verdade que a nossa noção de realidade está indelevelmente marcada e condicionada pelos média, não será menos verdade que nem sempre esse fenómeno é desfavorável, emitindo por vezes alertas importantes às sociedades alvo.
Nos últimos dias, e algo obscurecido pela recente tragédia ocorrida em Paris, veio a público mais um estudo desenvolvido à escala europeia (realizado pelo European Consumer Payment Report, a partir de dados recolhidos numa pesquisa realizada em simultâneo junto de 22.400 europeus, de 21 países), que constatou que 40% dos portugueses entrevistados acredita que os filhos “viverão pior do que eles” porque terão que enfrentar "maiores dificuldades financeiras" (mais do dobro da média europeia que se quedou pelos 17%).
E o que fazemos em relação a este cenário catastrófico?
Resignamo-nos, à luz da fatídica matriz judaico-cristã, aceitando o castigo por uma alegada culpa que não conseguimos identificar ou rejeitamos o sacrifício dos nossos?
Estaremos dispostos a lutar com todas as nossas capacidades para inverter essa premonição?
Não possuindo todos nós a mesma capacidade de influência e de intervenção nos círculos de poder e de governação, é pura mentira que nada podemos fazer face a esse “transcendente” destino.
Todos os cidadãos de uma sociedade evoluída e democrática, como nós nos gostamos de sentir, podem e devem intervir ao nível da cidadania ativa e proactiva pela melhor e mais consensual definição do futuro.
Chega de nos refugiarmos no anonimato de opinião, por detrás de desculpas como: “não queremos ser rotulados como do contra…”, “tenho receio de ser prejudicado profissionalmente por me manifestar como individuo e fora do tom das cartilhas partidárias…”, … enfim, argumentos (que só se comprovam por serem sinónimo de casos isolados) para escondermos de nós próprios que nos recusamos a dizer “presente”.
Ao deitarmos a cabeça no travesseiro para dormir, não poderemos esquecer que os governos, os partidos e os (pela maioria de nós irresponsavelmente apelidados de) políticos, são o espelho da sociedade que os elege. A qual, ao divorciar-se dos destinos que a afetará, não só passa verdadeiros “cheques em branco” a quem decidirá o seu destino como, pela sua passividade e omissão lhes retirará a confiança e, correspondentemente, a representatividade.
Numa sociedade que (se tudo correr bem…) sempre estará entre eleições, campanhas eleitorais, confrontos partidários e demais acasos do calendário político-partidário, estaremos sempre a tempo de a partir da comunidade, alavancada pelas suas elites, contribuir ao nível cívico e de cidadania, na busca das melhores decisões e dos adequados rumos que, disponibilizados aos diferentes níveis de governação, contribuam efetivamente para o benefício de todos.
Estando em causa o nosso futuro e, principalmente, o dos nossos filhos, parece-me de difícil defesa argumentativa a nossa demissão continuada, por alegados receios de sermos “tomados de ponta”.
Eu, por mim falo. Se depender de mim, os meus filhos não terão uma vida pior do que a minha.
Terra-Chã, 19 de novembro de 2015
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: