Eu, como muito provavelmente a maioria dos portugueses, estou atónito com as coincidências no erro que nos últimos dias vêm assaltando o nosso quotidiano.
Após a queda do anterior governo PSD/CDS tudo parece ter mudado. Mesmo quando os protagonistas se mantêm e o País (que todos juram defender...) se queda mudo e expectante, na ânsia que o nevoeiro de desinformação e do medo se dissipe.
1. Todos nos lembramos da certeza na saúde financeira e fiscal da nação (que encheu de parangonas os média), que permitiria ao então governo, curiosamente candidato a um novo mandato, a devolução aos contribuintes de 35% da sobretaxa do IRS.
Fruto das “maldades” dos mercados e dos cálculos estatais mal estimados, a verdade é que a devolução será zero.
Seria uma mera intenção eleitoralista para enganar o Zé Povinho?
2. A nossa memória coletiva ainda se mantém fresca, no recordar das afirmações do (ainda) Presidente da República, e no estrito cumprimento das suas constitucionais funções, ao afirmar que apenas empossaria um governo representativo da maioria dos portugueses, que usufruísse de apoio da maioria parlamentar.
Curiosamente, ao comprovar que a coligação PSD/CDS não almejou esse objetivo nas urnas, tudo fez para a manter artificialmente no poder, mesmo quando os representantes eleitos pelos portugueses a destituíram do governo.
Também desta nos presentearam com um lapso linguístico: o atual primeiro-ministro de Portugal, sustentado pela maioria dos votos expressos em urna e pela maioria dos deputados da Assembleia Constituinte foi indicado para formar governo e não indigitado, como vinha sendo usual...
Será que mesmo assim não custou a engolir?
3. Contrastando com a imagem deificada em Bruxelas (...), segundo a qual os portugueses (de tão cumpridores e obedientes que são) estão a suprir todos os hiatos da crise, à custa de uma “liderança austera e laboriosa” de que usufruíram nos últimos quatro anos, vamos sinalizando (através das notícias) o “campo minado” que foi deixado ao atual governo, que contrasta clamorosamente com o mito urbano da competência, responsabilidade e em defesa da causa nacional.
Mesmo sabendo-se da urgência (na vassalagem) exigida pela União Europeia, no tocante à sujeição para análise (e aprovação prévia…) do orçamento de estado para 2016, dizem-nos agora que nada ainda está feito. Nem sequer ao nível do trabalho administrativo e técnico básico, como as previsões de despesa salarial ou de investimento.
Será que as nossas “formiguinhas responsáveis e laboriosas” se cansaram de cumprir o seu dever ou, em defesa dos seus interesses de fação, decidiram armadilhar o futuro?
4. Em semana em que “o mundo” se mudou para Paris, por motivo da Cimeira do Clima, eis que surge mais um “lapso” administrativo, que originou a impossibilidade do Primeiro-ministro Português apresentar formalmente a sua comunicação, em virtude dos serviços do Estado não o terem previamente acreditado para tal.
Será que alguém do governo destituído ainda insiste em retirar-lhe visibilidade?
Muito provavelmente estes casos multiplicar-se-ão nos próximos dias, até que se atinja a tão necessária estabilidade governativa de que o País necessita.
Talvez seja tempo dos líderes partidários (quer estejam no governo, em apoio deste ou na oposição) entenderem que foram eleitos para defender Portugal e não os interesses de “família”.
Chega de nos violentarem com ameaças (que nem veladas são) de sabotagens e bloqueios futuros e inevitáveis, pois quem os elegeu não espera vendettas, mas sim boa governação, boa oposição e bom acompanhamento das realidades nacionais e internacionais, em prole e defesa dos dez milhões de contribuintes que os sustentam.
E porque os deputados eleitos são os melhores representantes de que podemos usufruir (pois outros não se perfilaram para o cargo…), chegou a hora de serem responsabilizados diretamente pelo voto de que usufruíram, forçando-os a destrinçar as diferenças entre lealdade ideológica (e mesmo partidária) e subserviência cega perante o “chefe”…
Ter-se-ão coletivamente esquecido que o seu compromisso é para com a Nação e não para com a fação?
Estamos todos no dealbar de um novo ciclo e perante uma “oportunidade de ouro” para acabar com estes equívocos.
...ou será que estou enganado e afinal estamos em condições de suportar uma guerrilha social e política pelos interesses instalados?
Angra do Heroísmo, 1 de dezembro de 2015
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: