Azores Digital

--> Hoje, dia 21 de Novembro de 2017

O Natal e a perspetiva

Sexta, 04 de Dezembro de 2015 779 visualizações Partilhar

Todos os anos, neste período, o tema vem à baila. Será que o verdadeiro espírito natalício já se esfumou totalmente?


Para já, como tudo na vida de resto, a resposta dependerá da perspetiva com que olhamos as coisas. A perspetiva de uma criança será sempre diferente da de um adulto.


Acreditei piamente na existência do Pai Natal até por volta dos oito anos. A maior ilusão infantil teve morte imediata quando os meus três irmãos, todos mais velhos do que eu, me colocaram perante a perspetiva economicista da quadra – “os pais é que compram as prendas”.
Fiquei algo desiludido (embora preferisse ver o velhote das barbas brancas vestido de verde…), mas o essencial era que os brinquedos continuassem a chegar ao meu sapatinho.


Lembro-me que a última encomenda por conta do Pai Natal foi um cão de peluche.


Um dia destes, a falar com amigos, lá se comentou a facilidade com que os miúdos de hoje vão satisfazendo o seu lado materialista. Todos têm telemóveis, televisões e computadores com Net e muitos jogos nos quartos de cama e, estou mais do que convencido, já ninguém mete na lista de prendas um cão de peluche.


Os tempos são outros. Na tal conversa, um amigo mais velho recordou que, na sua infância, só comia caramelos por via das célebres caixinhas de papelão que as crianças recebiam pelas visitas dos americanos às escolas no âmbito do programa de Acão social “People to People”.
Para cúmulo da felicidade da rapaziada de então, as caixas traziam berlindes que proporcionavam jogatanas que pareciam não ter fim.


Desfiou também a memória da compra do primeiro frigorífico da sua família, residente na freguesia da Ribeirinha. O pai, como trabalhava na Alfândega, adquiriu o eletrodoméstico por um preço em conta face à realização de um leilão entre os colegas de trabalho.

A cozinha nunca pareceu tão pequena com a azáfama.


Dois homens, vindos numa carrinha de caixa aberta, descarregaram e instalaram o frigorífico, objeto praticamente desconhecido no contexto temporal em questão.


Tudo a trabalhar bem, a luz ligando e desligando com o movimento da porta e, de repente, lá se chegou à conclusão de que não existia nada para colocar no frigorífico.


Hoje em dia tudo é banal. Se o frigorífico avariar, compra-se outro de imediato através de suaves prestações.


Só não sei se os mais jovens terão muitas histórias para contar mais lá para a frente. Depende da perspetiva…

 

Colunista:

João Rocha

Outros Artigos de João Rocha

Mais Artigos