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Frutuoso, mais tortuoso do que aparenta…

Segunda, 21 de Dezembro de 2015 832 visualizações Partilhar

Para os mais versados em literatura, volto aqui a apelar a uma leitura hermenêutica da obra de Gaspar Frutuoso, nomeadamente: do Livro Primeiro, do Livro Sexto, assim como de um esboço de outro volume, do qual só existem alguns capítulos e a que chamou “Saudades do Céu”, e ainda da análise crítica que sobre eles faz o Prof. Dr. José Enes (num pequeno volume que pode ser requisitado na Biblioteca de Angra: "Reflexões sobre as Saudades do Céu")

Todos aqueles a quem pedi este esforço concordaram no facto de ser muito equívoco o conteúdo da obra, mesmo tendo em consideração a “moda” da época condescender com esses devaneios literários.

Destaco entre os mais incoerentes:

a)   Frutuoso ter dedicado todo o Livro Primeiro (com 351 páginas, na edição actual) à criação e desenvolvimento de algumas personagens alegóricas (tendo em consideração ser um ilustre doutorado, e o seu objectivo ser o de relatar a história das Ilhas)

b)   A natureza ambígua dessas personagens: a “Verdade”, uma figura feminina que é afastada da sociedade por gradual desgosto com o que vê… (60 páginas na sua descrição), a Fama, a quem a verdade confessa o seu desencanto com o género humano, etc.

c)    Depois, saliento o carácter autobiográfico da personagem “Verdade”, dado que é através dela que é construída toda a narrativa dos seis volumes. Enes diz: “Por fim, há que mencionar mais um personagem ocultado em todos os momentos da elocução discursiva, mas nunca por ela nomeado nem mesmo aludido: o autor real dos três discursos, o alegórico, o literário e o histórico, o Doutor Gaspar Frutuosos, que nunca fala em primeira pessoa, nunca diz nada de si mesmo nem de seus pais, nem de alguém de sua família; e quando narra factos respeitantes a amigos nunca refere essa condição. Ora este ocultamento é inerente à própria intencionalidade deste discurso alegórico, faz parte da sua essência. Não é que a finalidade da alegoria seja ocultar o autor real: o ocultamento do autor real é, antes, a condição de possibilidade de dizer o que só através da alegoria lhe era possível dizer. …/… Pelo discurso alegórico o autor real transfere a totalidade da autoria dos discursos para a personagem Verdade; com tal transferência, tudo quanto ele teria a dizer como autor ficou transposto para a elocução da personagem Verdade; não será ele a dizer, mas sim a Verdade. E, destarte, por detrás dela se escondendo, a leva a dizer o que ele próprio queria dizer, mas por tais modos que os efeitos e as consequências de o haver dito resultassem diversos do que teriam sido se fora ele próprio a dizê-lo abertamente por si mesmo enquanto autor dos discursos histórico e literário” (pp.10/11)

d)   Para além deste tipo de recursos, Frutuoso dedica depois 71 páginas, ainda do Livro Primeiro (da 241 a 312), a descrever a Atlântida e embora o faça numa constante nega, entre as páginas 295 e 312 empenha-se em defender a versão de que os cartagineses teriam sido os primeiros descobridores dos Açores, lá deixando a estátua do Corvo...

Convoco então os literatos a este exercício de interpretação, pelo menos em prol da pura exegese, já que a “verdade” parece cada vez mais distante!

Antonieta Costa, 20/12/2015

 

Colunista:

Antonieta Costa