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A utopia dos homens livres

Sábado, 02 de Janeiro de 2016 977 visualizações Partilhar

Passados quinhentos anos após a publicação da obra literária de Thomas More “Utopia” (1516), concluímos que certos temas e problemas se mantêm eternos e atuais, sendo a nossa vida demasiado curta e imperfeita para propiciar uma evolução suficiente ou garantida.

More defendeu de um modo clarividente e eficaz (dando significado ao conceito que hoje apelidamos como “utopia”) aquilo que outros antes dele já tinham tentado através da conceção de projetos e cenários alternativos para a sociedade de então, acabando por pagar essa ousadia individual com a própria vida (por discordar das convicções plasmadas na legislação em vigor).

Essa reflexão sobre os modelos vigentes, e que em muitos casos se revelam obsoletos, parece-me gritantemente adequada para um início de ano que, levando a sério todas as mensagens trocadas nas últimas horas, nos fazem crer ser essa uma ambição globalizada.

Sendo bem verdade que o estado atual das coisas em muito transcende a nossa participação individual e a nossa capacidade de informação, conhecimento ou de decisão, não deixa também de o ser o facto de a nossa assídua omissão e o alheamento irresponsável nos tornar corresponsáveis pelo presente.

Em período de recessão profunda dos Estados Unidos da América, iniciada em 1929 e que se arrastou por toda a década de 30, os decisores políticos do momento definiram como objetivo nacional (e para muitos utópico) a ida do homem à Lua.

Este aparente desiderato inatingível, não só foi conseguido três décadas depois como o seu efeito mobilizador, ao estender-se contagiosamente a toda a nação americana, se tornou num fator decisivo para a recuperação económica do país que, mais tarde, se viria a tornar a maior potência política, económica e militar do planeta.

Já na atualidade, e um pouco por todo o lado, surpreendemo-nos com gestos e decisões aparentemente isoladas de pessoas que, ao seu modo e ao seu nível de atuação, tentam interferir na modulação do futuro onde se inserem.

Ai Weiwei, artista chinês de 58 anos, moldados pelas perseguições e injustiças políticas e sociais no seu país de origem, propôs-se recentemente a materializar uma obra de arte pública na ilha grega de Lesbos, como monumento de homenagem aos refugiados que chegam às praias de uma Europa privilegiada e não isenta de culpa, como fruto do verdadeiro êxodo migracional que vem levando à morte milhares de africanos que, ao fugirem de uma guerra interesseira e radicalizada, soçobram nas águas do Mediterrâneo.

 

A busca da “consciência social perdida” ou de, para alguns, “miragens idealistas”, é feita através de variados e imaginativos modelos, sempre com o objetivo de, identificando as necessidades (injustiças, ineficácias, irrealidades, insuficiências…) levar a sociedade a corrigir, evoluindo, com a ousadia do novo.

O que alguns tentam através da pintura ou da escultura de obra pública, muitos outros o fazem pela palavra escrita ou simplesmente verbalizada (infelizmente em locais muitas vezes inadequados para a produção do efeito desejado…).

O escritor e blogger brasileiro João Paulo Cuenca tenta-o com afirmação polémicas em defesa de erradicação de aspetos do nosso quotidiano que nos mantêm presos a um passado retrógrado, castrador e inibidor de progresso:

“…o trabalho temporário e mal remunerado que viola a alma, exige prazo e não tem data de pagamento. “

“…os salões a abarrotar de mediocridade, onde todos estão à venda e o preço é baixo.”

Com leituras e objetivos consensuais ou dissensuais, a realidade diz-nos que necessitamos de utopias prospetivas, holísticas e positivistas que, tirando-nos do marasmo ideológico e estratégico, nos devolvam o rumo por que todos suspiramos.

Em início daquilo que instituímos como um novo ciclo, apetece perguntar:

E você? Que utopia escolhe?

 

 

Terra-Chã, 2 de janeiro de 2016

Paulo Vilela Raimundo

 

 

 

 

 

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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