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Um presidente não chora?

Quarta, 06 de Janeiro de 2016 813 visualizações Partilhar

Todos nós crescemos a ouvir o chavão de que "o homem não chora".

Talvez o dito não esteja diretamente associado à insensibilidade exigida aos varões latinos, mas tão só à convicção de que os homens, que o querem ser, não revelam a terceiros os seus sentimentos mais íntimos, sob pena de os considerarem frágeis e, consequentemente, menos machos…

Curiosamente, o presidente da maior potência mundial do momento, tem vindo nos últimos dias a “chorar” em público demonstrando que sente e, principalmente, que em certos assuntos vale a pena revelar os seus sentimentos e convicções.

O mundo surpreendeu-se quando os média divulgaram a queda de uma lágrima fugaz, libertada por Barack Obama num concerto recente da Aretha Franklin. Consideraram os “construtores de opinião” que tal se deveu ao contágio da assistência rendida à qualidade performativa da Diva da música Soul.

À segunda vez, gerou-se a insegurança!

“Obama emocionou-se ao recordar as vítimas do tiroteio na escola de Sandy Hooks em 2012” propagaram as redes sociais, insinuando sinais de fraqueza do homem “mais poderoso do planeta”…

Se querem saber, eu fiquei mais descansado.

Num momento de tensão planetária, profícuo em confrontos múltiplos e insanos, é de algum modo reconfortante saber que o presidente dos EUA tem sentimentos e que estes condicionam a sua atuação política.

A legislação defendida por Obama, reguladora da venda e manuseio de armas de fogo que vêm dando origem a inúmeros atos de barbárie urbana, contraria os lobbies do armamento em defesa da vida humana, tentando impor maiores restrições à venda de armas, num país que para 330 milhões de habitantes tem 270 milhões de armas de fogo.

A responsabilidade dos governos e dos membros que os integram é tão-somente a defesa dos seus cidadãos, mesmo que para tal tenham de enfrentar os fatídicos “mercados” e/ou grupos económicos que sistematicamente tentam instrumentalizar os poderes legalmente instituídos.

Considerada como uma das “guerras” até agora perdidas pela administração Obama, o reforço do controlo na venda de armas não tem sido consensual no Congresso, onde desde os anos 90 do século passado se vem bloqueando a restrição dos americanos às armas, direito alegadamente garantido pela Segunda Emenda da Constituição.

Segundo os dados disponíveis, todos os dias morrem 33 pessoas nos EUA como resultado de confrontos envolvendo armas de fogo. Tal não tem impedido que 2015 tenha sido um período de crescimento exponencial da venda de armas, confirmando ser assim que a comunidade americana reage à insegurança instalada e aos recentes atentados profusamente divulgados.

Não existindo sociedades perfeitas, dever-se-ão combater frontalmente os aspetos nefastos que ainda subsistem de períodos em que a população do globo era significativamente menor, substituindo a conflitualidade pela cooperação, a segregação racial/social pelo respeito pelo próximo e os proventos do “mercado da guerra” pelo investimento no desenvolvimento harmónico do planeta.

Em dia de tomada de conhecimento de que a Coreia do Norte, liderada por um alucinado, é detentora da Bomba H, penso como gostaria de ver mais vezes os governantes de lágrima no olho...

 

Angra do Heroísmo, 6 de janeiro de 2016

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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