O mundo contemporâneo peca por excesso do “politicamente correto”.
Sempre foi mais fácil integrar correntes tendencialmente abrangentes (renegando gostos, ideias e vontades pessoais) com o fito de integrar o “rebanho” e desviar os olhares de nós, do que defender uma opinião (mesmo que minoritária), uma paixão (mesmo que discutível) ou uma prática identitária (mesmo que possuidora de alguma componente violenta).
A realidade porém é incontornável: uma sociedade só o é verdadeiramente quando respeita e integra a diversidade dos seus e se assume como o resultado dessa amálgama de sensibilidades, opiniões, tradições, direitos e deveres dos seus.
Todos sabemos que a defesa dos direitos dos animais vem ganhando terreno nas agendas político-partidárias do mundo ocidental, ao ponto de vir forçando, e bem, a maneira com que olhamos para o mundo que nos rodeia.
Porém, tal não me parece ser justificação para negarmos o nosso passado cultural, nem para proibir, por decreto, aquilo que para muitos de nós se revela como identitário e aglutinador de massas, num universo que, quer queiramos quer não, ainda tem uma abrangência mundial.
Tudo isto a propósito do significativo 50º aniversário da Tertúlia Tauromáquica Terceirense e das práticas associadas à tauromaquia e ao apelidado Mundo dos Toiros.
Ao refletirmos sobre o nosso passado histórico, facilmente depreenderemos que a tauromaquia, como atividade intrinsecamente cultural, ainda se mantém disseminada um pouco por todo o nosso país, com especial abrangência na ilha Terceira, tendo resultado de práticas ancestrais de jogos de guerra, onde se valorizava a destreza e a bravura, no confronto entre a força do nobre animal e a inteligência do garboso oponente.
Ao longo dos tempos, e em torno de tudo isso, foi-se construindo um universo de complementaridades e afetos que possibilitou a manutenção das práticas taurinas até aos dias de hoje, com impacto na sociedade, na cultura, no turismo e na (infelizmente) débil economia da Terceira.
Compreendendo e respeitando aqueles que se negam a participar em atividades lúdicas que envolvam animais e que possam colocar estes em situações de sofrimento, não posso aceitar que se ignore deliberadamente a riqueza cultural que estas práticas encerram.
Toda a sociedade terceirense (de um modo muito particular) e os amantes da Festa Brava no seu todo, devem considerar-se reconhecidos pelo importante papel que a T. T. T., sustentada em todos os seus associados, amigos e dirigentes, vem desempenhando ao longo das últimas cinco décadas, na formação de jovens e na dignificação da sociedade onde se insere, afirmando a realidade taurina e defendendo o seu papel de inegável e transversal característica de se ser português.
Certo de que o mundo não pára e de que mesmo as tradições mais arreigadas se vão moldando à vontade dos tempos, faço votos para que a relevante atividade da “nossa” Tertúlia se mantenha plena de força e vontade por mais 50 anos.
Angra do Heroísmo, 22 de janeiro de 2016
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: