Com medo do turismo de massas como o “diabo terá da cruz”, venho assistindo com interesse ao debate público, em boa hora desencadeado pelo Rotary Club de Angra do Heroísmo, sobre turismo cultural, como assunto a acarinhar seriamente e em prole da ilha Terceira.
Na certeza de que as companhias aéreas Low-Cost dificilmente se interessarão pela Terceira e de que o “turismo de sol” nunca será filão garantido para estas paragens, só nos resta identificar o que esta ilha tem de genuíno e seu, para (tratando toda a informação acumulada ao longo dos séculos) gerar produtos de índole cultural que possam tornar-se atrativos do ponto de vista económico e social.
O conhecimento existe e é público mas falta tratá-lo, dando-lhe forma de roteiros temáticos que, bem explanados pelos agentes turísticos, possam ser direcionados para quem nos visita, não negligenciando os próprios terceirenses, que em grande percentagem desconhecem importantes aspetos da sua história e da razão identitária de ser da sociedade que integram.
Analisado o fator turismo do lado do consumidor final (onde naturalmente me posiciono), julgo estarmos generalizadamente de acordo ao afirmar que: o que nos move para longe do nosso “pequeno mundo” é a possibilidade de podermos usufruir de experiências e realidades até então desconhecidas ou pouco aprofundadas, num ambiente pacífico e integrador, sem que nos sintamos tratados como “carneiros a quem tirar a lã”.
Se olharmos à nossa volta, constatamos que os poucos turistas que nos visitam, e que amiúdes vezes vêm em pequenos grupos de amigos ou em família (sem programas pré-definidos de grupo), dificilmente se sentem integrados, raramente conseguem informações fidedignas sobre muito do que os rodeia e no respeitante ao riquíssimo património cultural que lhes “enche os olhos”, raramente encontram a informação adequada.
Bem sei que muito se tem feito ao nível regional pela “venda” do destino Açores mas, preferindo pessoalmente o conceito de “oferta” ou “partilha”, acredito que o “caminho terceirense”, dando especial enfoque a Angra do Heroísmo, passará obrigatoriamente por guiões turísticos fundamentados, complementares e mobilizadores de grupos de interesse específicos, associados a um “bem receber” da nossas gentes que, no comércio, nas restauração e no dia-a-dia os façam sentir-se bem vindos.
Cabe aos agentes turísticos no terreno identificar os tão falados “nichos de mercado” criando, a partir da informação/conhecimento disponível, os roteiros de que tanto se vem falando.
Não pretendendo usurpar o conhecimento específico dos profissionais da área, nem denegrir o extenso trabalho que vem sendo feito pelas entidades públicas e privadas “no terreno”, atrevo-me a alvitrar e/ou recordar temas que me parecem motivadores de especial atenção:
Porque não um roteiro das igrejas explicando, aos locais e aos que nos visitam, os porquês da proliferação de tantos edifícios religiosos num espaço geográfico reduzido e com uma população residente que nunca foi maior que a atual?
Partindo do conhecimento disponível sobre as diversas ordens religiosas que operaram no arquipélago, e que ao longo dos séculos adotaram estratégias muitas vezes distintas e concorrenciais entre si, não vos parece adequado explicar a afirmação territorial e perspetiva globalizante que as movia?
Para quando um roteiro dos fortes que identificando/valorizando as restantes fortificações que agonizam na nossa orla marítima, esclareçam os motivos e o período em que foram construídas (epopeia globalizante dos Descobrimentos, período Filipino, 1ª Guerra Mundial, 2ª Guerra Mundial, Guerras do Golfo,...) para, face à sedimentação dos tempos, nos/os elucidar sobre o “preço” de se ser ilhéu e de habitar um território insular,intemporal e essencial para a história do Atlântico Norte.
O que falta para que se leve a sério a rota do toiro? Projeto que vem sendo defendido e acarinhado pela Tertúlia Tauromáquica Terceirense e que, não podendo ser negado pelos que não são apologistas das lides taurinas, poderá congregar e atrair um público disperso e diverso, num acompanhamento temático que não será obrigatoriamente sazonal, permitindo complementar os períodos festivos das touradas de praça ou de corda, com o período de “defeso” em que se trata do manuseio, seleção e (porque não?) valorização também afetiva do toiro.
Outros temas são conhecido e muitos outros surgirão. Basta querer.
Não nos será nunca garante, a manutenção do discurso segundo o qual, a centralização de toda a atividade económica numa única ilha é a causa das nossas desgraças. Como se os outros tivessem a obrigação de desistir dos seus projetos ou de aguardar pelos nossos, para que o desejado desenvolvimento harmónico se torne realidade...
O tempo passa e urge arregaçar as mangas!
Só nos falta demonstrar que merecemos o legado dos nossos antepassados, potenciando-o para o bem comum.
Angra do Heroísmo, 29 de janeiro de 2016
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: