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Intercâmbios Artísticos

Quinta, 18 de Fevereiro de 2016 758 visualizações Partilhar

Tim Ingold é outro Antropólogo da “Nova Linha” que, tal como Philippe Descola, propõe interpretações sobre a relação entre humanos e o seu ambiente natural que sugerem existir uma interacção muito mais intensa do que nos damos conta. Mas esta é mais uma realidade mantida oculta pelo sistema de vida em que estamos, ou, mais correctamente: de que não nos apercebemos devido à “cegueira” que caracterizou o homem do século XX (e que, felizmente, se está a modificar no século XXI). Professor na Universidade Escocesa de Aberdeen, as suas teorias tornam-se particularmente interessantes na recuperação de uma relação ambiental vista pelo ângulo artístico. Especificamente, o seu comentário sobre a natureza é o da “existência de uma qualidade artística nas criações desta”, sugerindo que a interacção do homem com a natureza, nesse campo, permite uma troca de ideias activa, se bem que perpetuada ao longo de gerações e milénios. Neste contexto, e segundo Ingold, o homem mantém com a Terra um diálogo traduzido em metáforas intemporais que, de parte a parte vão sendo construídas e perfeiçoadas. A imaginação ajuda a criar, em determinada fase temporal da vida do objecto (paisagem, construção específica, etc.) interpretações de ideias, de espaços e de objectos que o homem clarifica e traduz através da sua recriação artística, as quais, por sua vez, vão sendo alteradas pelo “tempo” (assim como a perspectiva humana da ideia inicialmente sugerida), permitindo então o surgir de novas ideias a partir dessas alterações, que se transformam em novas metáforas para o futuro. Segundo Ingold, trata-se de um processo ininterrupto no qual a arte se move à frente do curso natural do tempo, antecipando-o, mas mantendo-se em “correspondência” com ele, assim traduzido numa mistura de interacções de parte a parte da qual nos devemos aperceber (por exemplo, na paisagem).

Questionando a razão por que perdemos a percepção desses aspectos do mundo que nos rodeia, no seu livro “Being Alive”, Ingold lamenta o facto de nos preocuparmos mais com as fontes e autores dos textos que lemos, do que com “… o chão que pisamos, os céus em constante mudança, montanhas e rios, rochas e árvores …/… que estão constantemente a inspirar-nos, a desafiar-nos, a dizerem-nos coisas.” Apelando ao que chama “Cultura no chão” ou “o mundo percebido através dos pés”, Ingold faz trocadilho com termos como o do seu interesse pelos “materiais” vs. “Materialismo” (desinteresse social), tudo para desmistificar a visão distante que se tem do mundo, visto através da cultura e da ciência, e promovendo o interesse por um contacto directo e pessoal com esse mundo físico das coisas. O seu reparo tem a ver com a procura de inspiração, a que cada um se deve devotar e proceder, se quiser perceber a arte inscrita na obra da natureza.

Mas um aspecto mais generalista da sua filosofia dirige-se para a interpretação que faz da vida vivida através de “linhas”, que se emaranham ao serem atraídas, cada uma, para pontos que nos cercam, o que as transforma numa massa interconectada (em vez da “linha recta”, preconizada pela sociedade, seguindo um determinado fim, como num novelo), mais semelhante a um tecido, onde todas se entrecruzam.

Antonieta Costa
02/02/2016

 

Colunista:

Antonieta Costa