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A ovelha e a flor

Quinta, 17 de Março de 2016 665 visualizações Partilhar

Nunca deixo de me surpreender com análises ou observações cristalinas, que tendo como objetivo explanar um conceito, nos esmagam como verdadeiros bulldozers.

Tal voltou a acontecer pela voz de Rui Chafes, escultor luso e, principalmente, alquimista da realidade global, ao afirmar que, independentemente da beleza do prado, “uma ovelha não se detêm para olhar uma flor!”

Esta pérola da crítica comportamental revela o risco associado à nossa relapsa passividade e à omissão sistemática que maioritariamente assumimos em sociedade.

A tentação que sentimos em integrar o rebanho, seja ele de índole social, clubística, político-partidária ou outra qualquer, inibe-nos de contribuir para o bem comum (vendo para além do olhar) e de decidir pela opinião que gera a decisão (entendendo o mundo que nos rodeia).

Aproximando-se mais um ato eleitoral, muito se ouve falar da desconfiança generalizada nos nossos “políticos” e no desinteresse que envolvem os (sempre esquecidos) programas eleitorais e as ideias neles contidas, sem que a pólis, como principal interessada se sinta responsável pela busca e apresentação de estratégias que, a prazo, possam contribuir para o bem comum.

Num universo limitado, e reduzido a cerca de duas centenas de milhar de almas, não será expectável que existam muitos visionários milagrosos no circunscrito universo político-partidário que bem conhecemos, nem os açorianos no seu todo se podem comodamente divorciar da gestão política do território, escondendo-se por detrás do “dever de cidadania” traduzido unicamente pelo seu voto.

A meio ano das eleições legislativas regionais talvez seja chegado o momento de todos nós, de um modo ou de outro, sairmos da letargia ilusoriamente confortável do “não sei nada sobre isso...” ou de “a culpa é deles.” para, refletindo isoladamente ou em grupo, debatendo (se necessário) até que se chegue a uma solução plausível, influenciar as agendas e os programas partidários a submeter a sufrágio, de modo a que o programa eleitoral do partido que venha a constituir o próximo governo regional dos Açores possa espelhar os interesses, as ambições e as soluções propostas pela sociedade açoriana.

A dita democracia, que alegadamente, todos querem integrar, pressupõe que “todos os cidadãos elegíveis participam igualmente - diretamente ou através de representantes eleitos”.

Estamos perante mais um período em que alguns dirão que “falar de mais pode ser penalizante para o seu futuro próximo” mas que poucos poderão defender a omissão como atitude coerente e responsável para quem se diz preocupado com o futuro dos seus.

 

Queremos continuar “ovelhas” ou disfrutar da beleza das “flores” deste mundo?

 

 

Terra-Chã, 17 de março de 2016

 

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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