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O valor da Honra

Quarta, 23 de Março de 2016 742 visualizações Partilhar

No início dos tempos, a espécie humana, tal como todas as outras espécies, resolvia as suas contendas colocando os seus líderes em confronto direto e personificado que, por serem generalizadamente mais dotados, lutavam pela supremacia no seu universo social.

Com a evolução social da nossa espécie, esses líderes passaram a fazer-se acompanhar por maiores ou menores exércitos, integrando mesmo assim a frente dos combates previamente agendados e oportunamente localizados, partilhando regras de conduta e preceitos de honra dificilmente esquecidos.

Com o crescimento do poder político e económico esses, já então governantes, passaram a acompanhar as batalhas a partir dos bastidores, beneficiando do fator distanciamento e/ou ausência para quando algo não corria de feição.

...e eis que chegámos à atualidade, em que somos confrontados ao acordar com atos de guerra, direcionados para populações civis inocentes, apenas com o fito de instalar o terror.

Esta senda irracional de luta pelo poder, seja já ele qual for, vem transformando a espécie humana, até aqui a mais dotada para gerir o planeta, em algo de que ninguém se orgulhará e que poderá, no limite, levar à sua extinção.

Distanciando-nos do que hoje ocorreu em Bruxelas, bem como dos “danos colaterais” com civis dos raides aéreos na região do Magrebe, e refletindo sobre o confronto instalado entre civilizações contemporâneas, constatamos que a tecnologia dos drones e a supremacia informática do ocidente é combatida com atos terroristas em que se morre simplesmente para matar e instalar o ódio e o terror…

Sejam quais forem as assimetrias entre continentes e regiões, nunca o justificativo para tais atos de cobardia poderão ser atribuídos a crenças ou religiões. Mas a verdade é que a proliferação do medo poderá desencadear outros níveis de confronto armado que, dizimando populações nos arrastem ainda mais para becos sem saída.

Paralelamente à reação expectável de “pôr trancas nas portas”, recuando no que o acordo de Schengen contém de benéfico e saudável para uma Europa tolerante e aberta a todas as raças, credos e culturas, assistiremos ao crescimento da xenofobia e à tentativa, por vezes populista, de ostracização do diferente e de diabolização do desconhecido.

O diferendo dos próximos tempos centrar-se-á entre os campos da ingenuidade confiante e o da vingança cega…

Certo de que para a maioria de nós, os conceitos da honra e da lealdade para com o próximo não estão completamente esquecidos, torna-se vital a união da comunidade internacional, de modo a isolar os grupos extremistas que proliferam nos guetos suburbanos das grandes cidades ocidentais, integrando e esclarecendo os seus congéneres, para que estes os considerem criminosos e não heróis ou mártires.

Num mundo em que o verdadeiro poder é difuso e confuso, há que encontrar mecanismos de aproximar os cidadãos dos decisores, colocando nesse papel personalidades com verdadeira vocação de líderes, que demonstrem merecer a confiança e o cargo de liderança que lhes foram conferidos.

Sendo improvável a hipótese de voltarmos aos confrontos diretos entre quem governa, vai sendo tempo de reencontrar princípios identitários baseados na responsabilidade individual e na honra, alterando práticas de opressão e de confronto que acabam por afetar sempre os mais fracos.

 

 

Angra do Heroísmo, 22 de março de 2016

 

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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