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Fatwa O exemplo que vem da Ásia

Quarta, 30 de Março de 2016 723 visualizações Partilhar

As “hashtags” são hoje utilizadas como “palavras-chave ou termos associados a uma informação, tópico ou discussão que se deseja indexar de forma explícita” e facilitadora nos aplicativos comunicacionais mais utilizados.

Por sua vez, e para muitos dos ocidentais, “fatwa” corresponde a uma sentença de morte (unilateral e questionável) proferida por um líder religioso do Islão (da qual é exemplo o globalmente divulgado caso do escritor indiano Salman Rushie e do seu livro “Os Versículos Satânicos”).

Só que nem tudo é, simplesmente, o que parece (e em período de intensificação de extremismos que alguns gostariam de afirmar como “choque de civilizações” e/ou “conflito generalizado entre religiões”) e como prova disso, eis que começam a surgir reações no seio da religião islâmica, que poderão corresponder à esperada “vaga de fundo” que condene pública e inequivocamente o terrorismo, classificando-o pura e simplesmente como barbárie.

Foi tornado público que, os líderes da comunidade sufista do Islão sediada no estado do Rajastão (Índia) emitiram um pronunciamento legal (fatwa) condenando todos os grupos terroristas (Estado Islâmico/Daesh, Al-Qaeda ou outros), que abusivamente se dizem “defensores da fé islâmica”, pelos atentados consumados um pouco por todo o globo.

Esta condenação, que se deseja generalizada a toda a comunidade islâmica (e não só), foi confirmada por cerca de setenta mil clérigos de todo o mundo e milhão e meio de devotos, que participando no festival religioso na cidade de Ajmer, emitiram e aprovaram esta “fatwa”, determinando que estes grupos terroristas não podem ser considerados organizações islâmicas mas sim, bandos de criminosos que, sob o falso manto da religiosidade, perpetuam dos mais odiosos crimes contra as sociedades contemporâneas.

Enquanto as forças de segurança desempenham o seu importante papel, no âmbito da prevenção e combate ao terrorismo, é de crucial importância que a sociedade internacional, independentemente de raças e credos, condene os terroristas, seja qual for o mote que os mobilize, de modo a despindo-os das frágeis e duvidosas vestes de “heróis justiceiros”, os desnude como realmente são: criminosos que devem ser punidos como tal.

Insistindo na necessária diferenciação entre terrorista e refugiado, e considerando que a defesa da segurança e da esperança da nossa sociedade não pode ser trocada pelo negrume do terror e do medo, intitulo esta reflexão escrita com uma “hashtag”, apostando na divulgação do assunto que a sustenta como se de “fogo em seara” se tratasse.

Post Scriptum: No momento em que finalizo este texto, tomo conhecimento de uma manifestação da extrema-direita, que decorreu no passado domingo em Bruxelas e que arrastou o bairro de Molenbeek para um cenário de confronto aberto entre hooligans e as autoridades locais, em que se hostilizaram e estigmatizaram os aí residentes pelo facto de serem simplesmente …diferentes.

É esse o maior risco da atualidade. Que o medo instalado nos roube o discernimento, ao ponto de nos atacarmos uns aos outros, sem distinguir a quem.

A consciência e a razão ocidental têm como obrigação primeira, a defesa dos seus ideais republicanos e pró-democratas de liberdade, igualdade e fraternidade, mantendo-se a todo o custo a a unidade social, não permitindo que, a ainda frágil, União Europeia possa ser posta em causa pelo extremismo, qualquer que seja a sua origem ou motivação.

 

Angra do Heroísmo, 30 de março de 2016

 

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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