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No melhor dos mundos…

Terça, 17 de Maio de 2016 701 visualizações Partilhar

Não há nada melhor do que um fim-de-semana prolongado para, lendo e ouvindo o que por cá se diz, podermos identificar algumas das incongruências da lusa realidade, enquanto descobrimos individualmente quão diferentes somos dos restantes mortais.

Depois de décadas a desejar o milagroso turismo de massas, por vezes apostando arriscadamente em mais uma mono-atividade milagrosa, eis-nos perante o fenómeno “low-cost” que inundando as nossas principais cidades e vilas, já chegou aos Açores com efeitos visíveis em algumas ilhas do arquipélago.

Acreditam que mal começou, e ainda sem interiorizarmos a maior valia que daí poderá advir, já se ouvem vozes de gritante incómodo, alertando para o facto da paz provinciana que (muitas vezes) nos asfixiava nos poder ser roubada pelo turista que nos ocupa a mesa no café ou pela possibilidade de algum desses alienígenas nos retardar o passo ao tentar fotografar a família, em pose de fingidos conquistadores sazonais?

Do ponto de vista político-financeiro, todos almejamos em direcionar as nossas energias para a criação de riqueza que nos coloque, assim como aos nossos, num patamar vizinho do deificado Olimpo. Mas, sempre que algum provento se acumula, logo nos sentimos tentados, como dever identitário, a fugir aos impostos, recorrendo a inventivos métodos e omissões.

Percorremos desde meados da década passada uma expiação nacional por “alegadas culpas”, destinada a recapitalizar a banca internacional e as empresas, para assistirmos a uma surpreendente fuga aos impostos através de múltiplas estratégias e de inenarráveis “offshores” que enriquecem legalmente (???) esses beneficiários do nosso esforço coletivo.

Será humanamente justificável que até as empresas públicas, internacionalizando as suas sedes, se demitam de financiar o seu próprio Estado? Conseguirá alguém explicar com que razoabilidade e eficácia o próprio Estado negoceia com as empresas multinacionais isenções fiscais, que as diferencia dos restantes mortais?

Não será evidente que, nesse contexto, o Estado poderá vir a deixar de ter condições financeiras para cumprir a sua missão?

Essa assimetria de posicionamento, vem transformando uma sociedade que se diz “igualitária” ao nível dos direitos e deveres dos seus cidadãos, num sistema desequilibrado de privilegiados (poucos) a ser sustentados pela classe média (tendencialmente em vias de extinção…). Por este caminho, quem acabará por pagar as contas?

Não vos parece estranho a divinização generalizada da opulência e da ostentação da riqueza, chegando-se ao extremo de alguns de nós desejarem ver escondida a pobreza que alastra à nossa volta como fogo em seara seca?

Talvez este hábito de, subservientemente, se atender aos desejos (encapotando ordens) dos alegados líderes nacionais e internacionais (que obedientemente cumprem os ditames dos difusos “mercados”) sem se ter em conta os princípios basilares de qualquer sociedade consciente, para seguir cegamente o indefensável “politicamente correto”, possa estar a dar asneira.

Algo me diz que o caminho não é este, mas o mundo não parará à nossa espera...

Depois de uma enchente na Cova da Iria e de vários dias em que só se falará do Benfica,…que venha o Fado!

 

Terra-Chã, 16 de maio de 2016

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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