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A realidade carece de sol

Segunda, 06 de Junho de 2016 757 visualizações Partilhar

Tal como todos vós, já não suporto mais chuva e dias plúmbeos que, escurecendo os dias, nos ensombram a alma.

Anseio pelo regresso do nosso anticiclone, que junto com o bom tempo nos devolva o gosto pelo culto da família e dos amigos, em ambiente necessariamente otimista e de confiança.

Pena que, enquanto espero, não me saia da cabeça a dúvida quanto à eficácia do recém-passado “dia mundial da criança” e o esforço que muitos de nós fazemos para encobrir e esquecer o óbvio.

Enquanto nos “sacrificamos” a andar mais uns metros a pé, para que os meninos possam brincar nas ruas citadinas das nossas urbes, gostaríamos de esquecer que para milhões de crianças essa não é a sua realidade e que muitos deles nada conhecem para além da guerra, da fome e do medo.

Ouvimos falar nos milhares de crianças, em fuga da região do Magreb, que vêm desaparecendo para (entre outros crimes) traficar os seus órgãos e dizemos: Que horror. Mas não são os nossos!

Vemos diariamente pelos noticiários que a instrumentalização de menores nas guerras é uma realidade e pensamos: É uma barbaridade. Mas “eles” (lá longe) pensam de maneira diferente de nós!

Não conseguimos negar que, no nosso bairro, na nossa aldeia, no nosso “pequeno mundo”, existem meninos e meninas que, sem nunca o ser, passam diariamente fome e carecem continuadamente de orientação afetiva e formativa que os transforme em elementos válidos e bem formados. Mas, numa sociedade que é responsabilidade de todos nós, pensamos: Sempre houve pobres e agora até têm apoios sociais que nunca tiveram...

Só que é nesta geração de crianças (ricas ou pobres) que residirá, mais cedo ou mais tarde, a responsabilidade de gerir o futuro.

Pessoalmente não gostei da obra Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, por considerar que na vida real não existem “interruptores” que ao serem acionados nos devolvam a visão (leia-se a lucidez e o bom discernimento).

A omissão (porque é um problema dos outros…) e o “enterrar a cabeça na areia” não nos levará lá. Nem a ilusória noção de fronteira, seja ela de que tipo for, nos garantirá segurança e proteção que justifique a demissão de, no mínimo, dizermos: Basta!

Se neste ilusório “mundo ocidental” onde gostamos de nos sentir inseridos, se pretender realmente demonstrar algum comportamento ético e comportamental que justifique o avanço tecnológico e financeiro existente, urge cortar radicalmente com tudo o que conflitue com a igualdade de direitos e de oportunidades, independentemente das proveniências, raças ou credos.

Como é possível que os chefes de organizações terroristas, em muitos casos verdadeiramente criminosos, negoceiem diretamente com nações que se dizem evoluídas, para comprar armamento, vender petróleo e diamantes,… enfim, fazendo parte integrante (e muito lucrativa) do sistema económico e financeiro mundial?

Não recearão os membros dos G7, G8, G20, … que os seus ficcionados “punhos de renda” deixem de encobrir as nódoas?

Onde está a ética e os princípios nos líderes das maiores potências mundiais, para em troca de proventos chorudos hoje, hipotecarem o futuro de amanhã?

Pois é! Este é o espírito que os dias de chuva nos trás…

Só que isto não vai lá só com sol. Propunha-vos como exercício do próximo e desejado dia de sol, enquanto nos refastelarmos junto ao mar, observando protectoramente os nossos/vossos filhos e netos, que individualmente e à nossa escala, encontrássemos algo que sendo concretizado pudesse fazer a diferença.

Seremos capazes de, com um pequeno gesto ou atitude, começar a mudar o mundo?

P.S.: Segundo as estatísticas, recentemente divulgadas pelo Instituto de Apoio à Criança, no período em que esbocei este texto, desapareceram algumas dezenas de crianças na Europa, que maioritariamente não voltarão a aparecer.

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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