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Súbitas preocupações

Segunda, 13 de Junho de 2016 1023 visualizações Partilhar

Há preocupações que emergem sem nada que as explique, ou melhor sem que nada se tenha alterado a não ser o inexorável avanço no calendário da legislatura e a ansiedade que se instala de forma crescente nas hostes que pululam, de costas curvadas, à volta do poder instalado ou de uma virtual alternância, Ansiedade que se agudiza nos períodos que antecedem os vereditos populares pois, desse veredito depende a manutenção de um lugar à sombra do atual poder, ou da hipótese, meramente académica, de que o poder possa vir a mudar de cor. Entre a uniformidade do rosa ou do laranja, venha o Diabo e escolha. E é essa a experiência vivenciada nos Açores, a não ser na legislatura 1996 a 2000 onde o Sol brilhou e a democracia funcionou, pois os restantes 36 anos da nossa história autonómica foram de poder absoluto e, como sabemos, o poder absoluto não convive bem com a democracia.

O visível e súbito interesse e preocupação sobre a educação e a saúde, como direitos inalienáveis, ou sobre a crise na fileira do leite e da carne, nas pescas e no setor transformador como setores estruturantes da economia regional, só encontra justificação porque este ano é ano de eleições regionais. Outubro de 2016 determina as agendas políticas de todos os partidos e coligações, não excluo a CDU, mas existem diferenças quer nas abordagens políticas e eleitorais, quer na prestação de contas pelo trabalho realizado, e são essas diferenças que devem ser, ou deveriam ser, objeto de uma rigorosa avaliação pelos eleitores. Nem sempre assim é pois, o pão e o circo e a alineação servida pelo acessório, pela inverdade e pela imagem construída pelo marketing eleitoral interferem de forma decisiva nas escolhas eleitorais. Mas como dizia, este repentino interesse, de alguns, sobre questões que a todos nos preocupa deve ser questionado, Porquê agora. E, sobretudo, que responsabilidades tem cada um, dos que agora colocam como preocupações centrais do seu discurso político a educação, a saúde, o setor produtivo e transformador. O que fizeram, que propostas alternativas apresentaram, como votaram, como executaram. Estas são algumas das perguntas que devem ser feitas aos agora preocupados com uma situação da qual foram e são, por inércia ou concordância, ao longo de 40 anos, diretamente responsáveis.

O que é que pode mudar. Nada, Dirão os mais céticos, os descrédulos e os incrédulos, mas também os serventuários do poder e do virtual alternante ao poder. Mas pode mudar. Assim o entendam os eleitores, é deles, dos eleitores, que depende a mudança. Mudou no País em Outubro de 2015, não tanto como seria desejável, mas mudou.

O que é que podemos mudar. Tudo, desde logo, alterar o quadro parlamentar atual retirando a maioria absoluta ao atual poder e qualquer veleidade à direita de poder influenciar a política regional. Como é isso possível. Votando à esquerda e na rutura com as políticas de direita.

Aos eleitores cabe a responsabilidade de escolher. Escolher entre o absolutismo desta maioria que criou uma teia de dependências, uma maioria que promove o assistencialismo ao invés de garantir direitos, uma maioria que se esqueceu da coesão regional e centraliza investimento público, ou escolher um parlamento plural e sem maiorias absolutas, é disso que se trata. Um parlamento cujas opções políticas valorizem cada um e todos os açorianos, um parlamento cujas opções se fundem no desenvolvimento harmonioso, um parlamento que contrarie a ideia instalada de inevitabilidade promovida pela teologia dos mercados, um parlamento que possa optar por um modelo económico ao serviço das pessoas. As opções económicas só são importantes se promoverem o bem-estar dos cidadãos e a sua dignidade, Se incluírem e não excluírem.

Aníbal C. Pires, Horta, 12 de Junho de 2016

www.anibalpires.blogspot.com

 

Colunista:

Aníbal C. Pires

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