A vida real sobrepõe-se inexoravelmente à ficção e a prova disso foi, infelizmente, dada pelo ocorrido ontem na base aérea do Montijo.
No pleno desempenho das suas funções, uma tripulação que operava um avião militar C-130, pertencente à Esquadra 501 dos “Bisontes”, foi confrontada com um incêndio a bordo, que permitindo o desembarque da maioria dos tripulantes, reteve no cokpit o seu piloto, ao que se sabe por avaria do cinto de segurança.
Em plena tensão, e ao aperceberem-se de que algo de grave se passaria, dois dos integrantes dessa inquestionável Família, voltaram ao aparelho para libertar o seu comandante, tendo perecido com ele, na sequência de uma explosão.
Estes dois Homens (ao que se sabe, um capitão e um sargento-ajudante da Força Aérea Portuguesa, de nomes ainda não divulgados) demonstraram com a sua coragem e espírito de equipa, que o conceito de lealdade não é uma palavra vã.
Com o custo da sua vida, e esquecendo tudo o mais, não hesitaram em tudo perder para tentar salvar um camarada em risco.
Que tal gesto nunca seja esquecido!
No universo dito “civil”, por vezes se esquecem os significados de palavras como: missão, compromisso, confiança, respeito e solidariedade.
Também eu, que fugazmente cumpri o serviço militar obrigatório, sinto (por vezes) algum saudosismo pela sensação de integração em algo que nos transcende, para em ambiente de confiança plena, sermos voluntariosamente estimulados a fazer o que é preciso e o que os outros/nossos esperam de nós.
Quando amiúdes vezes sou questionado pelos meus filhos (que não entendem a minha preferência por filmes ditos de “guerra”), quanto à motivação que me impele a procurar na ficção esses momentos épicos de bravura, que a história ou a imaginação nos ensinam, relembro-me de quanto gostaria que a nossa vivência real tivesse menos de falsidade, traição, oportunismo e individualismo…
Num país de homenagens fáceis e logo esquecidas, eis-nos perante um gesto de inesquecível nobreza, que (independentemente de conclusões técnicas e de relatórios periciais) deverá ser assumido por todos nós, como lição de vida e exemplo para o futuro.
Aos que heroicamente perderam a vida, presto o meu singelo tributo.
Angra do Heroísmo, 12 de julho de 2016
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: