Assistimos placidamente, como se de outra galáxia se tratasse, ao assentar da “poeira ficcional” que envolve (e envolveu) a alegada tentativa de golpe de estado na Turquia.
Não bastando o recente e hediondo atentado de Nice, eis-nos perante um novo facto que, demonstrando a insanidade crescente do mundo atual, arrasta consigo mais nuvens negras que ensombrarão certamente o futuro do país, da região e do mundo.
Ao longo dos últimos anos, numa tentativa (que se sente esquecida) de integração na União Europeia, registaram-se (sob a liderança do ainda presidente Recep Erdogan) passos importantes na senda da liberdade de opinião e dos direitos humanos, que prenunciavam para os mais crédulos uma abertura ao ocidente e alguma ambição de integração num amanhã solidário e respeitador das diferenças culturais e das minorias, sejam elas de credo, de raça ou de opinião.
Confirme-se ou não a origem do golpe, a verdade é que os ainda frágeis pilares da democracia turca se encontram sujeitos a um ataque claro do poder político que, como numa verdadeira autocracia absolutista, vê enclausurar os líderes militares e judiciais, para que o único bastião de poder seja liderado por Erdogan, desempenhando o perigoso papel de monarca absolutista, em coincidente aproximação à Rússia de Vladimir Putin.
Não satisfeito com o (conveniente) caminho que se vem esboçando, e aproveitando a onda de cultivada “insatisfação popular” para com os ditos revoltosos, ensaiam-se passos de retrocesso no campo dos direitos humanos, revertendo-se a decisão humanista de se banir a pena de morte (decisão tomada em 2004) para pelo terror se perpetuar um sistema.
O inebriante sabor do poder, caso as suspeições se confirmem, poderá levar ao agravamento do, já de si, instável ambiente político e civilizacional da região, adicionando mais um sinal de alarme à “bomba relógio” que este planeta se vai revelando.
Cabe à comunidade internacional, recorrendo a todos os mecanismos de diplomacia ao seu alcance, tentar por travão à decapitação social da sociedade turca (segundo fontes veiculadas pelos O.C.S., já foram presos 13.000 cidadãos, na sua maioria militares, funcionários do sistema judicial e polícias, entre os quais, mais de uma centena de oficiais generais e inúmeros juízes e procuradores) e, respeitando a inalienável liberdade de escolha do povo turco, defender a sua liberdade e democracia.
Como que a propósito, e talvez este seja um aspeto que deva ser relembrado ao povo turco, recordo sábias palavras que ouvi ao Professor Eduardo Paz Ferreira:
“Um jogo de xadrez só com peões torna-se num jogo de damas.”
Lembremo-nos que casos como este tendem a repetir-se contagiosamente, levando o período de crise financeira global a um patamar de perigoso retrocesso civilizacional que nenhum de nós (felizmente) vivenciou.
A demissão coletiva, na defesa dos bastiões basilares da democracia (poder militar, poder político e poder judicial) que todos dizemos acreditar e defender, bem como do equilíbrio necessário entre estes, levar-nos-á obrigatoriamente por um caminho de difícil retorno que urge evitar.
Angra do Heroísmo, 18 de julho de 2016
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: