Algo no mundo que vivemos me levou a reler o “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago.
Tal como no desenrolar da trama literária, algo se desvaneceu abruptamente no nosso quotidiano, colocando-nos a todos num universo anoitecido e sem rumo aparente.
O “buraco negro” que a banca mundial criou à nossa volta, vem levando largos segmentos da população mundial a pensar e agir segundo princípios ilógicos, irracionais e, por vezes, claramente condenáveis, que assolam o globo e nos violentam com o medo do próximo.
O dia-a-dia presenteia-nos sem pudor com o terror do desconhecido, onde atentados, violações, genocídio, racismo, xenofobia,… se revelam condimentos de uma realidade que não desejámos.
No nosso pequeno torrão lusitano, e passada quase uma década de supressão da ficcionada “visão” (leia-se “dinheiro disponível”), o voyeurismo coletivo presenteia-nos regularmente com relatórios e contrarrelatórios que justificam a realidade com erros cometidos mas, mesmo quando esses são o resultado das imposições messiânicas dos potentados político-económicos ocidentais (EU, FMI, Troika,…), nada se altera, nem é motivo de responsabilização retificativa, mantendo-nos a todos numa “jangada de pedra (sangue, suor e lágrimas) ” aparentemente sem destino à vista.
A nossa “cegueira induzida” vê-se interrompida por fugazes clarões que, mantendo-nos na ignorância e afastados do controlo do nosso futuro, nos tentam surpreender com ilusórios placebos, tendentes a ocorrer sempre que eleições se aproximam…
Mas afinal o que nos falta? Que raio de coisa é que nos foi roubada?
Não foi dinheiro, porque ele circula (nos círculos que o acarinham…) como sempre: beneficiando poucos, com o sacrifício de muitos!
Não é a fome, porque embora o globo se veja ocupado por sete biliões de habitantes (quando no início do século XIX apenas seriam um bilião), nunca existiram tantas condições técnicas e tanto conhecimento científico para a erradicar, levando alimentos condignos onde eles não existem.
Será cultura e educação? Também não. Mesmo num processo evolutivo e inacabado, nunca o conhecimento das sociedades foi tão longe, nem tão propiciador de mudar o mundo para algo melhor.
O que nos falta é a esperança e a discricionariedade quanto ao devir.
Pensando com os “meus botões” concluo que aquilo que nos atemoriza e paralisa é tão-somente a incapacidade geral de se visualizar (e voltamos à cegueira…) o futuro, de modo a participarmos ativamente na sua construção.
Por muito que nos custe e até amedronte (tal como os segmentos mais conservadores teimam em nos atemorizar), é nossa obrigação coletiva lutar pelo nosso destino e, mesmo perante o risco de errar, insistir nos valores que nos são caros como os da liberdade, igualdade e fraternidade.
Os recentes episódios sobre as inquisitoriais “sansões” europeias, vieram demonstrar que se nada tivesse sido dito ou feito, muito provavelmente o desfecho teria sido outro.
É chegada a hora de (com responsabilidade, sensatez e respeitando os compromissos anteriormente assumidos) dizermos não ao que nos é prejudicial e lutarmos coletivamente pela visão nacional de que tanto carecemos.
Terra-Chã, 31 de julho de 2016
Paulo Vilela Raimundo
Colunista: