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A lição dos Jogos

Quarta, 24 de Agosto de 2016 866 visualizações Partilhar

No rescaldo dos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, e enquanto em Portugal nos dividimos entre os que reconhecem o esforço dos nosso atletas e os que se dedicam “à caça às bruxas” usando como pretexto os parcos resultados obtidos, o registo de um simples gesto marcou indelevelmente todo o evento, demonstrando ao mundo que existem causas maiores que as honrarias individuais.

Feyisa Lelisa, maratonista etíope que conquistou a medalha de prata, não hesitou em defender a liberdade do seu povo com um simples cruzar de braços que, pela sua pertinência e oportunidade mediática, assolou todo o planeta.

Esta digna e heroica atitude, tomada no dealbar de cerca de 42 quilómetros de prova, equivaleu a um verdadeiro “muro no estômago” para todos aqueles que, ignorando o essencial, se dedicam à adoração narcisística do seu “umbigo” compactuando, por omissão, com atos de genocídio e perseguição de grupos e/ou etnias minoritárias.

Este atleta, de etnia Oromo, pôs a sua vida em causa (e muito provavelmente a dos seus familiares também), com o objetivo de alertar a opinião publica mundial para a perseguição a que seu povo está sujeito, pelas mãos ou com a conivência do governo etíope.

Segundo se sabe, a perseguição da tribo Oromo (que corresponde a 25% da população etíope) resulta da vontade urbanística e especulativa dos poderes instalados de os  expulsar do seu território, fazendo tábua rasa dos direitos de um povo (tendo já matado, segundo a Human Rights Watch, mais de 400 pessoas desde novembro último) para, pasme-se, expandir a capital Adis-Abeba.

Nesta sociedade ocidental onde nos gostamos de saber inseridos, em que os feitos ou objetivos individuais são colocados à frente de “tudo e de todos”, eis que alguém nos vem demonstrar que “há acontecimentos na vida mais importantes que uma medalha”…

É provável que amanhã já ninguém se lembre de Feyisa Lilesa, como também é possível que o seu gesto não se mostre suficiente para alterar o rumo das intenções e dos acontecimentos no seu país.

Resta-nos a humildade de aceitar e reconhecer aqueles que colocam o interesse coletivo à frente dos seus interesses pessoais, conscientes de que poderão se perseguidos e penalizados por isso, sem por isso se deixarem acobardar ou demover.

 

Por este exemplo, os Jogos de 2016 já valeram a pena!

 

 

Angra do Heroísmo, 23 de agosto de 2016

Paulo Vilela Raimundo

 

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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