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Curiosidade ou apatia? (1)

Quinta, 06 de Outubro de 2016 438 visualizações Partilhar

Rochas, inscrições, pias e cortes – têm sido assuntos do meu dia-a-dia nos últimos anos. Mas de que modo este cuidado obteve eco no público para quem, aliás, os resultados do seu estudo se dirigem?

A questão sobre a reticente essência da resposta desse público tem sido objecto de ponderação, na busca da melhor forma de o alertar para o património que lhe pertence. Mas não se pense que seja tarefa fácil! Uma das razões - quiçá a principal? tem a ver com a qualidade patrimonial destes objectos: de que modo poderão eles ser apresentados sob um  aspecto atraente?

Embora possa parecer absurdo que tal questão seja mesmo objecto de ponderação, a verdade é que, habituados como estamos a atribuir valor a achados arqueológicos vistos como peças de arte, ou como valorizados pelos metais preciosos em que foram executados, ou ainda por revelarem escritos de um passado remoto (mas inequívoco), a comparação a estabelecer com estes só os desvaloriza. Isso porque não se incluem na classificação das “obras de arte” convencionais, nem possuem outras das características que costumamos considerar como merecedoras de estima. Para além destas razões, há ainda a recusa da sua legitimação por parte da arqueologia nacional, assim como das autoridades regionais.

No entanto acontece que, a contrapor a estes tipos de valorização, que são aqueles que mais facilmente conquistam o público, os que estudo destacam-se por outras razões: em primeiro lugar, pela sua autenticidade irrefutável quando observados em profundidade (devido à impossibilidade de pertencerem à modernidade) e depois, pelas semelhanças com outros que na Europa são tidos como ligados aos períodos do Paleolítico ou do Neolítico, o que levanta o grande anátema de não se enquadrarem nas práticas culturais do medievalismo tardio, típicas das populações de colonizadores que ocuparam as Ilhas Açorianas.

Porém os “achados”, como lhes chamo, para além desse testemunho de um passado tão remoto, situam-se em lugares paradigmáticos, quer pela beleza da paisagem, quer pela sua própria natureza, rude e primitiva – mas resultante de um diálogo com esta, singular e inaudito na sua simplicidade. No entanto acontece que por essa mesma razão, por estarem tão próximos da natureza e das obras desta, acabaram por tornar-se invisíveis para aqueles que dela se afastaram, razão por que conseguiram passar ignotos até ao presente. Embora sempre tivesse pensado que a riqueza histórica de que são portadores, mesmo tendo em consideração a inacessibilidade geográfica de alguns, deveria (pensava eu) ultrapassar todos os obstáculos. Não obstante, poucos são os visitantes desta enigmática herança!

A partilha que fiz no Facebook dos métodos de investigação (e do próprio processo) utilizados no estudo sobre as “Paisagens Rupestres da Ilha Terceira” no decurso destes dois anos, trouxe-me interessante feedback sobre o pensamento público. Sobretudo – inesperado! No modo como este se manifestou atraído (pela hipótese do novo paradigma histórico) mas paradoxalmente, amorfo, ou seja, incapaz de se seduzir pela acção (ver directamente). Para alguns, poderá eventualmente explicar-se por se considerarem já incapazes de ultrapassar os obstáculos físicos; mas para outros, a atitude revela um afastamento tão radical da “natureza”, que me aflige perceber a falta de capacidade desta para os seduzir. Ambas as reacções deixam-me perplexa e indecisa quanto aos métodos empregues!

Antonieta Costa, 30/09/2016

 

Colunista:

Antonieta Costa