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O estado a que chegamos

Quarta, 19 de Outubro de 2016 378 visualizações Partilhar

Já se fizeram muitos manifestos e já se publicaram muitos artigos de lamentação. Já se fizeram manifestações e já se pensou e falou tanto e tanto. Mas a nossa sociedade não pode ficar órfã do progresso, não pode sofrer com a apatia do Estado e da cisma pelo número. A nossa sociedade não pode ficar corrompida pelo poder, pelas alternâncias vazias de essência nem a nossa sociedade pode ser uma plateia imóvel, sem capacidade de agir e lutar.

O nosso vocabulário deixou de conter as palavras “emprego” ou até mesmo “trabalho”. A cegueira pela despreocupação, das instituições, empresas ou universidades, leva-nos a enfrentar a era do “estágio”, do “recibo verde” e do “contrato a prazo”. As empresas e instituições preferem o facilitismo e a precaridade de quem é trabalhador de base. É-lhes mais fácil sustentar os negócios de milhões. As pequenas e médias empresas não têm força para fazer mais do que aquilo que fazem, que é aguentar a muito custo, trabalhos de uma vida inteira. As universidades são absolutas mentiras. Existem cursos que apenas servem para garantir mais dinheiro aos catedráticos. Não há um esforço para integrar os licenciados no mercado de trabalho. São entregues às feras ou à cunha maliciosa.

O mérito é uma ilusão tremenda. Não existe porque não convém existir. Não é critério de escolha nem as oportunidades são sequer dadas a quem merece devidamente. O “estágio” é o emprego do século. Ficamo-nos por uma situação de precaridade social, de ignorância viva face ao futuro. Somos apanhados no abismo das circunstâncias. O desemprego é uma pretensão dos defensores do número, porque as pessoas não importam. Não fazem parte do xadrez social. O número impera, e importa a sua multiplicação infinita.

As universidades não se esforçam para nada. Absolutamente nada. Não motivam a experiência profissional, não querem perder tempo nem fazer com que os alunos possam queimar etapas. Querem despachá-los. Depois têm o descaramento de promover estudos, que indicam taxas inimagináveis de empregabilidade, de 80% e 90%.

Mais posso dizer sobre este estado lastimável da vida social – não só a falta de emprego ou trabalho nem o papel da universidade na transição para o mercado de trabalho – mas também acerca da função das pessoas, o que representam, os papéis que ocupam. Vejamos, como médicos ou enfermeiros podem trabalhar sem recursos? Como pode o Estado reduzir o prazer social de tarefas fundamentais? A saúde é banalizada, pela ditadura do número. Vejamos outro exemplo – como é que os professores podem ser tão esquartejados? Inutilizados pelo papel que desempenham. O Estado como inimigo da saúde e da educação? Não é porque não pode ajudar, é porque não quer. Que vá tudo à falência, mas que as pessoas não morram nem falte educação aos jovens! Essa consciência hedionda de ter de pagar a dívida. Essa dívida que não tem fim e que nós não sabemos o que significa.

Este é o estado a que chegamos. Um estado sem Estado capaz de dar um murro na mesa. Um Estado forte, que seja mínimo no que tem de ser mínimo, mas aguerrido no que tem de ser.

 

 

Colunista:

Emanuel Areias

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