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Protelações e Definhamento de um Projecto Democrático

Sábado, 22 de Outubro de 2016 247 visualizações Partilhar

Muitas têm sido as análises feitas aos principais acontecimentos que pautaram a vida nacional e regional na semana finda, com natural destaque para as eleições açorianas e para os desaguisados relativos ao Orçamento de Estado, à política social (pensões) e às orientações e defensivas opções governamentais “socialistas” em áreas programáticas, ético-políticas, morais, técnico-profissionais e (até) político-comportamentais e argumentativas (como nos incríveis casos do turismo futebolístico à conta da Galp e nos astronómicos salários da CGD, que Costa acaba de justificar e abonar neoliberalmente com o mercado bancário...).

– Sobre as eleições regionais quase tudo o que valia a pena e o fruto comentar foi dito, evidentemente no cruzamento proveitoso e no confronto livre de vários testemunhos locais (v.g. aqueles que o DI e o DA divulgaram, com destaque merecido para uma entrevista a Aranda e Silva no diário terceirense) e com os que OCS lisboetas e as redes sociais multiplicaram (de entre os quais se poderiam citar, sem falsos pruridos, pseudo-ofensas vitimizantes ou apologias, conforme os casos, os artigos e leituras de Eduardo Cintra Torres (“A abstenção nas eleições dos Açores ronda os 60%. Quem são os vencedores e vencidos quando seis em cada dez cidadãos não votam?”); Luís Delgado (“Os Açores são de facto uma região muito complicada, muito pobre, analfabetismo, insucesso escolar, desemprego. (...) Estamos a falar de uma região que ao longo de 40 anos não conseguiu dar a volta, não conseguiu criar, inverter, alterar, mudar a situação de grande pobreza, de grande dificuldade que existe (...); com tantas dificuldades, tão pobre, tão difícil e tão espalhada como está, a abstenção é absolutamente normal”), e Vital Moreira (“É relativamente fácil explicar a continuidade política nas regiões autónomas – só interrompida nos Açores há vinte anos, com a saída de Mota Amaral – e que tem a ver sobretudo com o generoso regime financeiro das regiões, que ficam com todas as receitas fiscais aí geradas, sem terem de contribuir para as despesas gerais da República (que ficam a cargo dos contribuintes do Continente) e que ainda gozam de avultadas transferências do orçamento do Estado. Em igualdade de circunstâncias, os açorianos têm mais rendimento do que no Continente: salário mínimo mais elevado, pensões mais altas, impostos menos elevados. Nestas circunstâncias,   seria preciso governar muito mal para perder eleições, o que não tem sido o caso nos últimos vinte anos, para bem dos açorianos”!

Mas no quadro propriamente partidário – recomendando-se logo aqui o fabuloso pronunciamento crítico do PCP (“Um resultado [das eleições nos Açores] que não é separável da intensa campanha de condicionamento eleitoral que, a partir do governo regional e de todas as estruturas da administração regional, foi exercida, de uma acção de mistificação sobre a verdadeira situação económica e social resultantes de duas décadas de governação do PS”) –, nada se perderia em rever todas as declarações corporativamente conformadas e acomodatícias, congratulatórias, mistificadores ou apenas auto-justificadoras, conforme, dos vários actores e agentes deste cenário abstencionista, significativamente em idêntico coro de desresponsabilização (ou passa-culpas) pelo estado comatoso e de inegável agonia democrática a que ingloriamente chegámos, numa espécie de entropia do sistema e do regime estabelecidos e da sua correspondente alienação e definhamento societário (social, cultural, institucional, moral, profissional e ético), tanto por omissão própria como por indução alheia, nas quais e pelas quais as nossas ilhas dispersas e amorfas comunidades cívicas, desde há muito, sem excepções notórias, consistentes e consequentes, se tem vindo progressivamente a afundar.

A nível nacional nada de novo também, nessa pia incubadora de sofismas e subterfúgios em que o país continua mergulhado, mais agora com as geringonçadas viabilizações (ditas) de mal menor ou (feitas) de consentimentos envergonhados (quando não vergonhosos!) – ainda pelo que cegamente uniformizam hoje e descredibilizam para amanhã – do BE e do PCP, cada vez mais, na prática sensível, pouco diferenciáveis desse ressabiado ninheiro de arranjinhos e descaramentos de um PS pequeno-burguês, ambicioso e dúplice (novamente unanimista “à Sócrates”?), perante as oscilações tácticas e recorrentes amarras do pretendido e famigerado “arco da governação” do restante alforge político....

– Ora é neste grave círculo vicioso de penúria mental e de total ausência de exercício de Cidadania que se aguarda uma improvável transformação de valores e hábitos pessoais e institucionais no próximo Parlamento e na escolha e entronização do próximo Governo regional, sestro aliás já latente (embora dissimulado) na corrida aos lugares de comando (e de oposição ao mando), enquanto se limpam trunfos e dívidas para a rodada que se segue nas excelências e subserviências da Democracia, da Autonomia e dos apregoados critérios (agendas e complexos...) “de esquerda” (como diz o nosso tão expressivo ministro das Finanças), temendo-se porém que (inconscientemente?) rumo a um pior, enganoso e desenganado futuro!

P. S. Já depois de escrito e enviado primeiramente este texto para publicação nos jornais “Diário Insular” (versão parcial) e “Diário dos Açores” de hoje (22 de Outubro), e bem assim nas Páginas Digitais da RTP-Açores (Comentadores) e aqui em “Azores Digital”, lemos um artigo de Henrique Raposo, no “Expresso” (edição on-line), intitulado “Que liberdade pode haver nos Açores?”. Nele o autor deixa pertinentes constatações e interrogações, assim salientes na citação que segue:

– “Quase 10% da população açoriana depende do Rendimento Mínimo de Inserção. Há aqui qualquer coisa de errado. E o erro está na forma como o poder político aprisiona a sociedade. (...) Se adicionarmos aos 10% de dependentes do RSI os números da juventude ‘nem nem’, dos funcionários públicos e dos reformados, das empresas dependentes dos subsídios do governo autónomo e das empresas estatais, ficamos com um retrato distópico. Que liberdade pode existir numa sociedade tão controlada pelo poder político? Ou será que o poder político dos Açores vê nesta dependência uma utopia? (...) Que sociedade civil pode existir num contexto de total dependência do Estado?”.

 

Colunista:

Eduardo Ferraz da Rosa

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