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AS LAJES E A GUERRA, NOS AÇORES

Sábado, 26 de Novembro de 2016 333 visualizações Partilhar

“A Guerra é a continuação da política por outros meios”, escreveu o célebre prussiano Carl Von Clausewitz;

“Ultima ratio regis” (o último argumento do rei) aparece gravado em muitas peças de artilharia, inclusive em algumas que estão nas colecções do Museu de Angra do Heroísmo.

Começo por estas duas frases porque, francamente, começa a ser demais que se continue a entender como perigosa, para os Açores, a presença de uma base militar como a das Lajes, mesmo agora, com redução de efectivos humanos.

Afirmar isso é, simplesmente, querer esquecer a história, em geral, e a dos Açores, em particular, e, até porque várias dessas afirmações são, vez por outra, proferidas por pessoas com responsabilidade, importa perceber-se até que ponto essa ideia tem pés de barro.

Desde logo as presenças militares não são, em si, sinal de guerra, embora não o sejam, também, de paz. São, simplesmente, estruturas de apoio a políticas, económicas ou até sociais, e as duas frases acima mais não fazem do que clarificar isso e saliento, aqui, o facto de ambas apresentarem a acção militar como recurso avançado e não como atitude inicial. De facto, tal como os gatos, os pavões e os galos sabem, muitas vezes um bom miado e alguns rosnidos, uma cauda ampla e farfalhuda mostrada no momento certo, ou um cócóricó afinado e estridente, cantado quando importa, para evitar maiores males e feridas quase certas.

As visitas das diversas esquadras aos Açores, nas décadas de 20/30 do século XX foram isso mesmo, com alemães, franceses e ingleses a mostrarem-se por estas águas.

Por outro lado, as próprias presenças militares esforçam-se por ter um sistema de alerta e de vigilância maior, mais eficaz e mais abrangente, na simples certeza que uma atenção permanente ao que acontece em volta permite saber o que se está a passar e distinguir se é perigoso ou não.

Durante as décadas de 60/70/80, a vigilância de 24 sobre 24 horas realizada pelos Orion P3 da marinha dos EUA, não fazia apenas a vigilância anti submarina e anti soviética de então, passava a pente fino todo o espaço que lhe estava atribuído.

Mas o mais relevante, nestes tempos que correm, é perceber-se que, desde as torres gémeas e, já antes, nos tempos do anarquismo militante e bombista dos inícios do século XX, muitas acções ditas de guerra acontecem em espaços supostos de paz, como o metro de Madrid ou o Bataclan, agora reaberto, em Paris, e não é por termos uma presença militar que estamos mais ou menos sujeitos a um eventual ataque. Sem falar na verdadeira guerra cibernética que hoje se trava, todos os dias e a toda a hora. Tudo por sob um manto muito pouco diáfano de aparente paz.

As Lajes poderão ser incómodas por muitas razões, a maioria das quais se prendem com ineficácia negocial, falta de visão e curta perspectiva histórica, mas não por a sua presença significar menor segurança, antes pelo contrário.

Mais do que criticar, importa sabermos porque é que as Lajes existem e se modificam a cada década, que circuitos económicos e de interesses suportam ou bloqueiam seria importante, para nos podermos posicionar.

PS: Questiono-me, já agora, sobre como foi possível deixar a questão do radar meteorológico chegar ao ponto em que chegou, quando já se previa este desfecho há muito mais de dois anos.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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