Azores Digital

--> Hoje, dia 27 de Maio de 2017

Lugares Comuns

Quarta, 04 de Janeiro de 2017 373 visualizações Partilhar

Sem sequer ser novidade, o ano de 2017 amanheceu com o mundo ocidental sitiado no seu próprio território, acuado pelo medo gerado pelos fenómenos extremistas e/ou de revolta pela segregação insana das sociedades contemporâneas.

Catapultados pelo calendário, e após as festividades natalícias que agora findaram, teimámos em ficcionar mais uma vez a realidade sob uma imagem, cada vez mais irreal, de harmonia familiar, como se esta fosse o último bastião dos nossos sonhos e anseios.

O otimismo lusitano imanado pelo eixo Belém – S. Bento, no ano que agora findou, adicionado aos anseios individuais e urgentes de consolidação do nosso universo privado e familiar, teima em contrastar estridentemente com o mundo real que nos afronta no dia-a-dia.

Como ficou demonstrado pelo recente atentado na discoteca Reina, em Istambul, as “trincheiras” de azevinho com que cercámos os tradicionais arranjos de Natal já não se revelam suficientes para nos levar a esquecer o presente e a resistir a encarar as nuvens negras que se perfilam no horizonte, dificultando-nos a convicção de que este novo ano trará algo de diferente e promissor.

Um pouco por todo o lado, e com especial incidência nas grandes cidades, assistimos a um confronto intenso e destrutivo entre os últimos bastiões sociais /famílias que considerámos (eternamente) protetores/as e uma nova realidade composta (também) por emigrantes, refugiados ou simplesmente deslocados que, em reação à marginalização que lhes é imposta, invadem as ruas e as cidades em grupos de excluídos, amiúdes vezes com atitudes de histeria coletiva que facilmente evolui para a violência e a destruição do património de quem os rejeita.

A este fenómeno, já nosso conhecido, adiciona-se a tendência de abandono e consequente desertificação do interior ruralizado das nações em alegado “privilégio” dos grandes centros populacionais, arrastando muitos dos que vivendo sem a qualidade de vida que ambicionam, arriscam tudo numa migração ficcionadamente idealizada para as cidades-estado, acentuando a guetização de largas faixas da população e cavando um fosso social cada vez maior entre ricos e pobres.

Como todos já sabemos, a tentativa de ignorar esta dura realidade que invade sem consentimento o quotidiano ocidental atual não resultará.

Há que tomar medidas imediatas e consequentes que, promovendo a integração dos migrantes, lhes devolvam a confiança nos territórios de origem, incentivem ao repovoamento das regiões interiores e descongestionem as grandes metrópoles em prole de um desenvolvimento abrangente e tendencialmente hegemónico.

É chegado o tempo de reconstruirmos sociedades de e para as pessoas, em prejuízo dos sacrossantos números estatísticos que vêm asfixiando o globo, entendendo que o respeito mútuo, sem estigmatizar as diferenças, é a única via para a paz social de que o mundo precisa.

A estratégia neoliberal de fortalecer a banca e os grandes potentados económicos à custa da massificação e do empobrecimento das massas não está a resultar, evidenciando na prática que as hosanas que alguns “arautos” teimam em apregoar são falsas.

A solução poderá passar pelo reforço e consolidação da regionalização ou por outro conjunto de medidas alternativo, mas (para aqueles que ainda acreditam na democracia das pessoas) urge deixar de tratar os cidadãos como massas amorfas e sem direito a opinião, devolvendo-lhes o direito ao livre arbítrio e, investindo neles, enriquecer o coletivo.

Não será o início de um novo ano a altura certa para reencontrar o caminho perdido?

 

Terra-Chã, 4 de janeiro de 2017

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

Outros Artigos de Paulo Vilela Raimundo

Mais Artigos