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ONDE PARAM OS TÉCNICOS E POLÍTICOS DO PATRIMÓNIO?

Sábado, 07 de Janeiro de 2017 289 visualizações Partilhar

Onde param os autarcas, governantes, técnicos (engenheiros, historiadores, arquitectos, construtores, operários e artífices), políticos, líderes de opinião, comerciantes, que saibam alguma coisa e se empenhem no uso, valorização, incremento e progresso económico e social do chamado Património Cultural edificado, em especial o imóvel, de modo sustentável e com perspectiva positiva?

O problema é vasto e abrangente, e vai muito para além da fraca ou inexistente preparação da maioria dos técnicos da nossa praça, pois envolve quem propõe, decide e autoriza intervenções em património cultural.

De facto, temos assistido a uma destruição continuada, permanente, sistemática, de tudo o que se poderia chamar de herança cultural ou de património e, em contrapartida, vive-se, actualmente, numa animada procura do design contemporâneo, da modernidade nos centros históricos, da novidade e da inovação, das intervenções “dialogantes por contraste”, como se esse fosse o único caminho.

Nada tenho contra a contemporaneidade, mas já não parece tratar-se de ignorância, antes, sim, de vontade efectiva de destruir. Se o património edificado fosse, apenas, “território particular” de um sector da sociedade, seria mau, mas tratando-se de herança colectiva, que diz respeito a todos, não existem palavras, pois a responsabilidade desta atitude torna-se colectiva.

A percentagem de áreas do arquipélago abrangida por legislação de salvaguarda chega perto dos 20% e não temos, na Região, a capacidade técnica, devidamente formada e informada, para intervir num espaço tão fundamental para a nossa identidade como o construído.

Trata-se, aliás, de uma área onde a intervenção deve ser, por norma, multidisciplinar, passando pela arquitectura, pela história, pela engenharia, pela arqueologia, pela economia, pela sociologia e psicologia comunitária, pela intervenção cultural global, integrada e perspectivada.

O profundamente lamentável é que continuamos a não conseguir interiorizar a valorização do património como algo natural e positivo e, portanto, continua a haver quem pergunte, logo à cabeça, se basta deixar a fachada, se se pode acrescentar ou demolir isto ou aquilo, se deixar um qualquer pedaço de testemunho, a um canto, basta, como memória, “para cumprir a lei”.

A incapacidade é tal que, mesmo no programa REVIVE, recentemente lançado pelos Ministérios da Economia, da Cultura e das Finanças, a criatividade imaginada e prevista pelo governo da república não vai além de “hotéis, restaurantes, museus ou espaços para eventos” e os investidores são “obrigados a abrir os espaços ao público”. Ou seja admite-se, logo à partida, que se trata de uma servidão cultural e nem se concebe que uma intervenção, bem inspirada na herança cultural aqui colocada á disposição, possa ser viável e lucrativa, se for bem e devidamente orientada – simultaneamente – para a economia, a cultura e a sociedade.

Em boa verdade todas as intervenções em imóveis classificados, em centros históricos ou em zonas de protecção, nos Açores, só deviam ser feitas desde que subscritas por técnicos com formação e curriculum na área do património cultural e devidamente acompanhadas por outros que garantissem maior consenso e menos alienígenas a nascerem, todos os dias, por essas ilhas abaixo, a par de tanta destruição desnecessária e cretina.

A nossa identidade, a nossa cultura, a nossa paisagem, o nosso turismo, se quiserem acrescentar, merecem e precisam dessa atitude.

 

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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