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O Caminho das Pedras

Terça, 17 de Janeiro de 2017 455 visualizações Partilhar

Ou muito me engano ou o mundo que julgávamos conhecer se encontra seriamente tentado a seguir pelo caminho (ilusoriamente) “mais fácil”!

Como o título indicia, essa opção (quando utilizada como um intuito jocoso) define um “meio pelo qual se pode chegar com mais rapidez, proveito ou vantagem, a um lugar ou a um objetivo desejado, e que supostamente só é conhecido pelos mais experientes ou espertos”.

…e é com este último grupo, o dos “espertos”, que me preocupo!

Como que a propósito, as mais votadas candidatas a palavra do ano 2016, identificadas pelo dicionário britânico Oxford (pós-verdade, nacionalismo, populismo, direita alternativa,…), foram sintomaticamente indiciadoras das novas realidades/riscos com que a atualidade nos ameaça.

Vejamos os conceitos inclusos nestas realidades que ensombram e ameaçam um planeta finito, demasiado populoso e, muito provavelmente, sem capacidade anímica para resistir a um novo conflito generalizado.

 

Pós-verdade: Eufemismo que, encobrindo a manipulação da verdade dos factos, influencia o seu público-alvo de um modo eficaz, “conduzindo-o” com a conivência a e cumplicidade de influentes órgãos de comunicação social para uma proximidade do seu próprio sentimento de Mundo.

 

Nacionalismo: Tese “renascida”, com  alusões veladas a conceitos retrógrados como o da supremacia da raça. Tende a influenciar a sociedade contra a miscigenação dos povos e de culturas, omitindo os benefícios inerentes à livre circulação de pessoas. Os atuais fenómenos de terrorismo, resultantes de políticas de ingerências múltiplas à escala global, servem na perfeição para fundamentar atitudes aparentemente isolacionistas e autocráticas de alguns governos.

 

Populismo: Explorando despudoradamente o descontentamento alastrante da atualidade, visa através do recurso a argumentos fratricidas e divisionistas, manipular as massas e justificar os insucessos governativos (quando seus) com os interesses instalados e com as convenientes “elites”. Esta “decapitação” social (ambicionada pelos políticos mais extremistas, de esquerda e de direita), levar-nos-á através da desvalorização e negação das camadas pensantes e mais habilitadas, e aqui falamos de capacidade e não de privilégio, a uma auto justificação de curto prazo para os governos impreparados e a um retrocesso de contornos inquantificáveis, que se confirmará inexoravelmente a médio ou longo prazo.

 

Direita alternativa (do inglês alt-right): Ideologia de direita que se apresenta como alternativa ao conservadorismo americano, defensora declarada da supremacia da raça branca e apologista do racismo, e que de um modo globalmente preocupante levou à eleição de Trump.

Premonitoriamente, eis-nos perante quatro palavras/conceitos que marcarão o futuro próximo, usufruindo de condições excecionais para o seu (maléfico) desenvolvimento, enraizado em quatro condições excecionais que se conjugam na atualidade: políticas governativas sem fundamentos ideológicos claros; existência de grupos transnacionais com interesses instalados que condicionam o futuro das populações; descrédito na capacidade dos governantes e nos símbolos nacionais e (como resultado claro da descredibilização das classes políticas) limitada oferta, quando não inexistente, de personalidades capazes/estadistas para nos liderarem na construção e defesa de um futuro digno.

Com a tomada de posse de Donald Trump, concretizada antes do final desta semana, teremos mais um flibusteiro a sentar-se à mesa onde já se perfilam um perigoso naipe de autocratas (Vladimir Putin, Recept Erdogan, Rodrigo Duterte, Kim Jong-un, Bashar al-Assad, …) que se regem por muitas destas “palavras da moda”.

Felizmente o nosso país tem passado (até prova em contrário) “ao lado” de algumas destas tendências.

Se optarmos por investir na valorização pessoal, em alternativa à massificação acéfala; no culto da cidadania e do civismo, em prejuízo do racismo e da xenofobia; na defesa de conceitos maiores como os da liberdade, igualdade e fraternidade, rejeitando a estigmatização da diferença;… será que ainda vamos a tempo de “passar entre os pingos da chuva”?

 

Angra do Heroísmo, 17 de janeiro de 2017

 

Paulo Vilela Raimundo

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

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