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Do Resgate da Sinagoga à Perpetuação dos Legados

Sábado, 28 de Janeiro de 2017 331 visualizações Partilhar Do Resgate da Sinagoga  à Perpetuação dos Legados

 

DO RESGATE DA SINAGOGA MICAELENSE

À PERPETUAÇÃO DOS LEGADOS JUDAICOS (1)

 

1. Na continuação dos seus múltiplos e anteriores trabalhos de investigação e excepcional recolha histórico-documental, já amplamente reconhecidos e consagrados nos Açores e internacionalmente (em especial nos Estados Unidos) – a par de um persistente e incansável empenho pessoal directo (ainda institucionalmente garantido e viabilizado com lucidez pela Câmara Municipal de Ponta Delgada) na inestimável salvaguarda, recuperação e arquivo dos espaços, símbolos, objectos e demais legados da Sinagoga Sahar Hassamaim de Ponta Delgada e da antiga Comunidade Judaica micaelense –, em boa hora acaba agora José de Almeida Mello de editar um novo e longo artigo no jornal “Correio dos Açores”, em bem adequada sequência diária ali publicado entre os dias 19 e 22 do corrente mês de Janeiro.

O artigo, como o seu autor anunciava logo na respectiva introdução, abordou “o interesse de judeus norte-americanos nos legados sagrados da Sinagoga Sahar Hassamaim”, desenrolando-se “segundo duas grandes linhas: a primeira seguindo a viagem a viagem de Barry Dov Schwartz [rabino norte-americo] a Ponta Delgada, em 1965, que no seu relatório refere os legados hebraicos de Ponta Delgada, datando-os de entre os séculos XV e XVII (quando na verdade são do século XIX...); a segunda abordando o interesse dos judeus norte-americanos, com destaque para quatro (4) rabinos, em adquirirem esses mesmos legados (...) com o intuito de os levarem para os Estados Unidos”

– E mais logo precisava o investigador micaelense: “O interesse dos judeus americanos na nossa Sinagoga e nos seus legados manifestou-se depois em dois momentos e modos: o primeiro pela tentativa de compra directa; o segundo através de um apoio financeiro à Sinagoga, procurando garantir por esse meio a salvaguarda dos seus declarados interesses na obtenção daqueles legados sagrados, quando apenas restasse só um judeu em Ponta Delgada”.

 

2. Li, naturalmente, com grande atenção e interesse, toda essa importante série de textos que aquele historiador micaelense e presidente da Associação dos Amigos da Sinagoga generosamente entendeu dever difundir publicamente, tanto mais quanto desse modo se procedeu a uma divulgação de fontes documentais inéditas e doravante imprescindíveis para a elucidação fundamentada e a compreensão situada da particular História do Judaísmo nos Açores, no quadro geral da História dos Açores e da Diáspora Judaica.

Trata-se assim, para além do mais, de um género de revelação e disponibilização de fontes semelhante – à respectiva dimensão e âmbito temático, evidentemente – àquela que consta de outros Repositórios histórico-documentais clássicos (Arquivos, Anais, etc.) e que constituem peças indispensáveis para o estudo multidisciplinar e a compreensão aprofundada dos factores, agentes, actores, estruturas, mentalidades, valores e percursos determinantes da vida colectiva, social e pessoal ao longo do tempo das nossas comunidades insulares hebraicas e não só.

– Felicito pois novamente o Dr. José de Almeida Mello e congratulo-me com a louvável publicação destes seus textos no "Correio dos Açores", registando também aqui as amáveis referências pessoais (e as motivadoras sugestões solidárias...) que me fez para que, de modo complementar quando não alternativo, continuasse eu próprio o meu anterior trabalho de investigação, análise crítica e reflexão sobre temáticas locais afins ou correlacionáveis com aquelas que abordou da História do Judaísmo nos Açores (com maior ênfase para a ilha Terceira), mas também com outras, mais universais, com as suas heranças e destinos socio-históricos, religiosos, político-institucionais, filosóficos, simbólicos e existenciais.

De resto, de todos estes actuais artigos de José de Almeida Mello, poderei dizer o que afirmei anteriormente em diversas ocasiões e também sobre o seu belíssimo livro-mensagem sobre a Sinagoga Sahar Hassamaim de Ponta Delgada (Ponta Delgada, Publiçor, 2009), – um “notável projecto e obra de História, Recuperação e Conservação (então já rigoroso, promissor e premonitório – e realmente tão profético e visionário no seu aduzido trabalho – quanto dele os luminosos frutos testemunharam, agora a maior evidência, a riqueza das suas reais, comprovadas e imensas potencialidades, aliás exemplarmente reveladas a quando da mundialmente divulgada abertura desta Sinagoga, e da crescente e interessada vaga de visitantes que começaram e continuarão por certo a admirar tão assinalável herança da presença hebraica nos Açores”.

– Obra, sublinhei ainda, que, “para além do seu evidente valor intrínseco como repertório documental, inventário patrimonial e verdadeiro manifesto em prol da recuperação daquele paradigmático monumento comunitário e símbolo religioso, socio-histórico e cultural dos Açores e do Povo de Israel, vale também como a face primeira de um projecto cívico e de resistência memorial (devidamente suportados por diversas e irmanadas instituições regionais, nacionais, hebraicas e norte-americanas), tanto mais justificado, retroactiva e prospectivamente, quanto a obra feita e a palavra cumprida foram – ao contrário do que teria sido uma cedência comodista, cobarde ou apenas preguiçosa, quase como a de Jefté, segundo o Talmude lido por Elie Wiesel... –,  um verdadeiro protesto cívico, teórico e prático, contra a indiferença e contra  desleixos,   ignorâncias e recorrentes ignomínias civilizacionais...”.

 

3. No que ao artigo em específico começo de apreciação hoje respeita – “Ainda sobre as Toras da Sinagoga de Ponta Delgada e a Torah emprestada à Base das Lajes em 1966” – podemos entretanto adiantar com satisfação que, juntamente com muitos outros dos textos que o autor tem vindo a publicar, virão os mesmos merecida e felizmente a ser reunidos em livro que prefaciarei com gosto e grato empenho.

– Em próximas Crónicas analisarei em detalhe o teor e as informações destes últimos e citados de José de Almeida Mello, confrontando os seus conteúdos e pistas documentais e factuais com outros testemunhos, fontes e contextos terceirenses e norte-americanos (nomeadamente os existentes na Base das Lajes), para articular depois e finalmente os inéditos elementos da matéria aqui exposta pelo historiador micaelense com as conhecidas e mais ou menos problemáticas (duvidosas e/ou ficcionais...) narrativas e estórias sobre a mesma história (isto é, a da Tora cedida de Ponta Delgada e a “das Toras” ditas “do Porto Judeu” e “de Rabo de Peixe”...), cenários nunca dantes realmente apurados em todos os seus misteriosos e enrolados contornos institucionais, socio-religiosos, político-diplomáticos, económicos e patrimoniais açorianos, nacionais e internacionais, como a seu tempo e desmistificador modo se há-de procurar desenrolar...

 

Colunista:

Eduardo Ferraz da Rosa

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