Azores Digital

--> Hoje, dia 22 de Maio de 2017

Distopias, factos alternativos & outras (perigosas) baboseiras

Terça, 31 de Janeiro de 2017 266 visualizações Partilhar

Após um domingo tristemente anoitecido e invernoso, ocupei parte do tempo a folhear as páginas dos jornais “com olhos de ler”, como diria Álamo de Oliveira, ficando (e continuo...) abismado com a insanidade alastrante que grassa no mundo.

Bem que procurei aspetos positivos e, de algum modo, inspiradores que me devolvessem os raio de sol que as plúmbeas nuvens açorianas teimavam em roubar-me, mas não. Todas as notícias escritas, faladas e/ou visionadas se quedaram em alarmar-nos, não chegando a surpreender, nem a nós, nem aos próprios americanos, pois estes já o sabiam maioritariamente desde o dia das eleições de novembro último, nos EUA.

Este “novo” posicionamento autocrático do presidente em funções, da alegada “maior potência mundial”, vem chocando o mundo com um discurso alarmantemente racista, xenófobo e atentatório de tudo o que as “velhas democracias” vêm pregando como maiores valias de uma aproximação entre os governos e os seus eleitores, sem diferenciação por questões de sexo, raça ou credo.

Enquanto os cidadãos dos Estados Unidos da América, num espetro social cada vez mais lato, vão ganhando consciência de que muito correrá mal se o caminho for este, os setores tradicionalmente democratas (e já muitos republicanos) procuram já ansiosamente a melhor solução para controlar ou destituir o seu inqualificável presidente, com o fito de extinguir o “incêndio” que tende a alastrar a toda a “floresta humanizada” do globo.

A velha Europa, olhada por Trump como obstáculo político e económico à conquista (diria usurpação...) da sua ambicionada coroa de “monarca do planeta”, vem sendo um dos alvos preferenciais, como bem ficou demonstrado pelos ataques a alguns países da União Europeia (começando pela Alemanha) e à valorização elogiosa que vem dando ao Brexit, como decisão unilateral do Reino Unido (que nunca assumiu claramente se queria, ou não, integrar verdadeiramente a U.E., adotando a moeda única…).

Depois dos atos e palavras hostis lançados contra a UE, NATO, ONU e demais organizações (ou tratados) internacionais, que putativamente pugnam por um mundo solidário e em paz, não é já possível ignorar que a política interna que a atual administração americana pretende impor visa essencialmente o fortalecimento dos privilégios de alguns amigos plutocratas e de certos setores económicos (automóvel, armamento, industria pesada, …), que criarão ilusoriamente alguma repercussão interna (que já se revela ineficaz, como as quedas bolsistas recentes já demonstram…), para em simultâneo a política externa americana pautar por uma estratégia de “dividir para reinar”, sabotando, minando pela intriga e validando pela mentira (ou inenarráveis “factos alternativos”) tudo e todos que lhe façam frente.

Como contraponto, será nossa obrigação (e do restante mundo dito “civilizado”), evitar o distanciamento perigoso da opinião pública internacional, que irresponsavelmente acobardada possa ser tentada a aceitar o argumento de que “se trata de um problema interno de um país que não é o nosso”, esquecendo (ou fingindo esquecer) que muito poderá correr mal se este/a discurso/atitude, indelevelmente marcado/a na nossa História desde o segundo quartel do século passado, se for mantido/a por mais tempo.

Bem sei que Portugal é um país pequeno, pobre, endividado e com apenas dez milhões de habitantes..., mas a verdade é que integramos o todo e, como tal, seremos penalizados ou beneficiados com o que de bom ou mal o futuro nos trouxer.

Talvez o exemplo de David e Golias nos possa fazer pensar se não será tempo de reação/união, esquecendo as estratégias autofágicas de conquista do poder (usadas e abusadas pelos partidos políticos e por algumas nações que se dizem aliadas…), que fundamentadas em ideologias há muito esquecidas, se refugiam em simples atos de desestabilização e boicote, correndo o risco deste “cair na rua”.

Em momento de inegável crise interna da União Europeia, em que algumas vozes já vaticinam o fim da própria moeda comum, talvez seja chegada a hora de se reavaliar esta aliança dos ainda 28 estados-membros que a integram, valorizando o passado europeu e a cultura milenar dos povos que a constituem, equacionando o fim das (em muito) ficcionadas diferenças entre norte e sul, ricos e pobres,… e olhar criteriosamente a oportunidade de um (eventual) avanço concreto na direção de um federalismo europeu que, unindo os mais de quinhentos milhões de cidadãos europeus em torno do que os caracteriza, se possa revelar um exemplo para o mundo, sob um regime verdadeiramente democrático e solidário, respeitador das minorias e das particularidades de cada estado/nação e co-responsável pelo desenvolvimento de um mundo globalizado de que não poderemos alhear-nos.

Contrariando a atual tentação distópica, que tende a eliminar o pensamento pessoal e individual, e banindo-se definitivamente os ditos “factos alternativos” (tantas vezes assumidos como realidade, com a ajuda de alguns órgãos de comunicação social…), já vai sendo tempo de lutarmos por uma sociedade de iguais e para iguais, onde sejam respeitados os direitos dos outros e cumpridas as obrigações que, por vezes, tendemos a esquecer.

Enquanto pensamos em como potenciar a inclusão na sociedade que integramos, aconselho-vos a ler (ou a reler) o livro “1984”, de George Orwell, que, como livro mais vendido da Amazon nos últimos dias, tem muito de premonitório e de assustadoramente esclarecedor, face aos enredos que (não sendo carnavalescos) nos poderão assombrar nos próximos tempos.

Boas leituras!

 

Angra do Heroísmo, 31 de janeiro de 2017

 

Paulo Vilela Raimundo

 

Colunista:

Paulo Vilela Raimundo

Outros Artigos de Paulo Vilela Raimundo

Mais Artigos