Azores Digital

--> Hoje, dia 22 de Maio de 2017

DA LEGALIDADE DA ASNEIRA - 2

Sábado, 04 de Fevereiro de 2017 228 visualizações Partilhar

Por estranho que pareça, a maioria das pessoas que me fez o favor de comentar o que escrevi, pensou que eu estava a defender o “património”.

Para elas, o Palacete Caetano de Andrade, em Ponta Delgada, o hotel das vinhas do Pico, o edifício público, em Angra do Heroísmo, as “barraquinhas da marina de Angra” são problemas que resultam de uma má protecção, da não inventariação, da fraca intervenção, etc., ou, por outra forma de ver, são causados por esse mesmo património, já que se torna num permanente entrave do progresso, da novidade, do moderno.

A realidade é que, de uma forma ou de outra, se continua, com demasiada facilidade e ligeireza, a culpar quem não tem culpa, o coitado do “património”, que fica no fim da linha, sozinho no terreiro e diante do toiro, quando o resto já fugiu para cima dos muros ou nem sequer, alguma vez, esteve no chão.

Porque as questões ditas “do património” não são responsabilidade sua! Quando se chega a esse nível, sobretudo em Portugal, isso quer dizer que todos os decisores já lavaram as mãos, o combate está decidido e ao coitado do património só lhe resta defender-se, a custo e muitas vezes sem êxito.

Vejamos então, tendo sempre presente que a maioria do que é, hoje, património, começou por ser, simplesmente, algo que fazia parte da vida quotidiana.

O caso do Palacete é exemplo perfeito. Antes de ser um problema, eventual, de património, antes de se criticar o projecto, teria sido importante evitar – se fosse essa a decisão a tomar – que a sobrecarga construtiva assolasse as nossas cidades, criando problemas de trânsito, pondo as pessoas a dormir em caixas de fósforos, umas em cima das outras, só porque a arquitectura regional de Nova Iorque é o que se sabe, todos queremos morar em Nova Iorque e os investidores imobiliários são isso mesmo. O que se passa em Ponta Delgada passa-se porque os instrumentos de planeamento, aprovados e discutidos em público, permitem aquele volume construído e aquela ocupação. A questão devia ter sido colocada antes, quando da discussão pública, não agora em que, se alguém quiser avançar, corre atrás do prejuízo e arrisca-se a indemnizações grossas. Ninguém acha bem que um prédio fique em ruínas, mas custa admitir que só se lembrem do património para bloquear e quase nunca para criar o que podia ser uma adaptação bem conseguida a funções habitacionais, compatíveis com a beleza daquilo e o conforto que a nanotecnologia contemporânea permite, além de que aquela fachada antiga, colada assim ao resto, é o querer tapar o sol com a peneira.

O hotel das vinhas, no Pico é, por sua vez, uma espécie de navio de cruzeiros metido por terra dentro. Novamente não é não querer alojamentos ou, sequer, um hotel. O que se tem de perguntar é que instrumentos de planeamento estão activos, que grupos de acompanhamento existem, que permitam casar uma intenção de investimento com aquela paisagem e o turismo de qualidade, etc.

Voltarei ao assunto.

Post Scriptum: Sugiro que visitem, na internet, o trabalho que foi feito, até agora, em Sintra, pela empresa Parques de Sintra – Monte da Lua.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

Outros Artigos de Francisco Maduro - Dias

Mais Artigos