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O manual de um mau escritor

Quarta, 08 de Fevereiro de 2017 393 visualizações Partilhar

Lembro-me de uma intervenção. À data do lançamento do meu livro, o primeiro, o senhor Vereador da Cultura da minha cidade, Dr. Tibério Dinis, disse à assistência reunida, que o mundo de hoje estava em constante mudança e que a informação era em abundância. Aquilo que se escrevia multiplicava-se aos milhares anualmente pelo mundo inteiro e o critério de qualidade tornava-se muito difícil de atingir. Desde essa intervenção que não me esqueci da dificuldade acrescida que qualquer cronista ou escritor tem para marcarem a diferença.

Lembro-me de um reparo. À data do lançamento do meu livro, o primeiro, pedi que me fizessem uma nota sobre o meu livro, e rapidamente, e com razão, falaram-me nas etapas por alcançar e nas metas por atingir, antes do clímax que supostamente tinha adiantado. Fiquei com perplexidade a olhar para o comentário, e hoje vi que a razão era alguma, mas não total.

Lembro-me de um debate de ideias. Uma iniciativa da Juventude Social-democrata, onde falei um pouco sobre irreverência. Antes de irreverência, saber o que é reverência. Falei e ali percebi, perante os outros, que a minha atitude na escrita era de irreverência e não precisava ter medo de me adiantar ou de cair.

Um manual de um mau escritor é o que vos quero apresentar. Desde que concebi em mim esta coisa de escrever, melhorei-me e desliguei de temas. Distanciei-me de observações. Encurtei frases e acertei mais na ortografia e na conjugação dos verbos. Posso ter perdido um pouco do senso comum dos escritos e tornei complexo até para mim, a minha busca pela identidade do que sou a escrever. Deixei de ser mau e passei mais ou menos. Talvez chegue ao bonzinho, mas nunca ao bom, nem ao muito bom. Ignorante seria por pensar no excelente.

Fazendo jus ao que sempre me disseram e dizem ainda, teria deixado a escrita de lado, sem remorso por forçar o esquecimento. Porque a escrita não me dá nada, quando comparado ao que dou de mim para que ela reflita o que quero que ela seja para mim. Quando escrevo não penso muito no outro que lê, mas no que quero dizer. Quem não gostar da minha mensagem pode facilmente colocar de lado o que eu digo. Porque eu optei a certa altura por reflexões da vida e da filosofia, dos sentimentos e das aprendizagens, das memórias e recordações. Não acho que a atualidade seja cativante para a transmissão do autor pela escrita. É essencial para a transmissão da mensagem. Ponto. O autor fica à deriva e a sua causa é que importa.

Mas o que será um mau escritor? Um mau escritor ensino-vos eu a ser. No dia que se começa a escrever tem de se denotar interesse pelo mundo. Tem de se querer conhecer e observar. Mesmo que seja imaturamente, mas tenta-se buscar a explicação das coisas ou o entendimento das matérias de gente grande. Um mau escritor deve ser um jovem de corpo e alma. Não deve ter medo do erro, mas buscar sempre o sonho. Não deve ficar embebido na complexidade das sínteses que outros transmitiram pelos seus livros. Nem deve ser o reflexo do conhecimento do outro. Deve ser um fazedor de reflexões e análises da vida e das pequenas coisas.

Um mau escritor deve escrever de forma simples. Acessível a todos. Deve fazer autocríticas e deve responsabilizar-se perante quem o leu. Não deve querer vender o que escreve, mas deve querer dar as suas aprendizagens ao outro. Deve errar no meio de um texto, falhando vírgulas e palavras. Deve evoluir no pensamento e não estagnar perante a dúvida de uma ideia. Deve expressá-la e louvá-la. Deve defender o que acredita e deve crer no que aceita como verdade. Mas deve questionar e prolongar o debate sobre tudo o que vê e observa. É um observador social e um filósofo que não se fixa no que já viu e analisou.

Um mau escritor não ignora a crítica construtiva e melhora. Não sucumbe ao juízo de valor. Não se magoa com o comentário depreciativo. Um mau escritor é de todas as idades. Não acredita em pré-requisitos para se escrever e poder publicar o que se escreve. Não fica triste por ter um mau texto, mas fica triste por pessoas que não leem um único texto dele e criticam-no injustamente.

O bom escritor é o contrário de tudo aquilo que um mau escritor é. Penso eu que sou um mais ao menos. Logo, nem entro nessa luta. Ao menos isso.

 

Colunista:

Emanuel Areias

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