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Do Resgate da Sinagoga à Salvaguarda dos Legados

Sábado, 11 de Fevereiro de 2017 222 visualizações Partilhar Do Resgate da Sinagoga à Salvaguarda dos Legados

Do Resgate da Sinagoga Micaelense

à Salvaguarda dos Legados Judaicos (2)

1. Tal como já tive ocasião de reafirmar por várias vezes e em diversas ocasiões, o resgate – digamos mesmo – da condenação derradeira e do abandono e ruína a que estivera votada, e a posterior recuperação patrimonial da Sinagoga de Ponta Delgada e dos seus constituintes bens e integrantes legados histórico-culturais, documentais e religiosos devem-se principalmente aos múltiplos empenhos, perseverante dedicação e consequente trabalho pessoal do historiador e investigador micaelense José de Almeida Mello, dinâmico presidente da Associação de Amigos da Sinagoga Sahar Hassamaim.

Incansável, persistente e muito frutuoso, todo o labor de coordenação (e mais do que isso, desde o início, de liderança) do Dr. José de Mello, tem de resto contado com o merecido e clarividente apoio da autarquia dirigida pelo Dr. José Manuel Bolieiro e sua equipa camarária (nomeadamente do vereador e vice-presidente Dr. Fernando Fernandes), sendo que, deste modo – o único realmente possível, a par de conhecidos suportes familiares e empresariais regionais, dos beneméritos incentivos de várias instituições judaicas norte-americanas e de algumas notórias solidariedades individuais e locais mais ou menos detectáveis e permanentes (conquanto, infelizmente, bem menores do que seria de esperar hoje...) – em conjugação de esforços, projectos e realizações efectivas, a obra já feita por esse incansável pesquisador e estudioso está todavia agora suficientemente consolidada e amadurecida para poder dar novos e maiores passos e frutos qualitativos, de entre os quais, subscrevo e reitero mais uma vez nesta oportunidade, a criação de um Centro de Estudos Judaicos dos Açores (velha aspiração de José de Mello), em Ponta Delgada, junto da sua emblemática e conatural Sinagoga (cuja denominação tenho proposto seja a de Centro de Estudos Judaicos Alfredo Bensaúde), enquanto se vai simultaneamente avançando no presente com a promoção e abertura programática (Colóquios, Simpósios, Cursos Livres, Evocações, Iniciativas Editoriais, etc.) para mais amplos horizontes e confluentes actividades e realizações temáticas no âmbito da História dos Judeus em Portugal e no Mundo, da Presença Hebraica nas Ilhas dos Açores, da Cultura Sefardita e do Pensamento Judaico, entre muitos outros relativos ao Povo e ao Estado de Israel...

– E é assim, no domínio editorial acima referido, por exemplo, que tenho vindo a recomendar e a louvar, associando-me à ideia (que sei estar em devido propósito anunciado) de proceder-se à publicação em livro de toda uma série de artigos, estudos e preciosa documentação inédita que Almeida Mello tem vindo a pesquisar, reunir e criteriosamente divulgar na imprensa regional, e que tem sido acolhida pelo “Correio dos Açores” (CA) que nisto presta, conforme à sua antiga e melhor tradição, um bom serviço cultural à nossa sociedade.

Porém vem isto aqui precisamente ainda a propósito da última série de artigos que José de Almeida Mello tem editado no CA, conforme em Crónica anterior comecei a realçar, ou não tivesse também eu sido chamado a participar na análise, debate e dialogado tratamento confluente das matérias ali tratadas ou sugeridas, mormente aquelas que em muito dizem respeito à ilha Terceira, no cenário descrito ou apelativamente proposto à problematização...

– Voltemos pois ao assunto, sinalizando hoje os principais núcleos da matéria histórico-documental neles aflorada, e cujas implicações e respectivos alcances são muito mais pertinentes e relevantes do que à primeira, desatenta ou passageira vista possa parece.

2. Na muito interessante e substancial sequência de um conjunto de 23 artigos temáticos sobre a Sinagoga de Ponta Delgada e a Comunidade Judaica micaelense, José de Almeida Mello publicou recentemente no CA, entre os dias 19 e 22 de Janeiro último – tal como tenho vindo a salientar – um longo artigo (Texto 24) dividido em 7 Partes e intitulado “Na Rota dos Legados Hebraicos de Ponta Delgada – Sobre as Toras da Sinagoga de Ponta Delgada e a Torah emprestada à Base das Lajes”.

– O artigo, sempre circunstancialmente balizado, como se irá recapitulando depois, para além de uma Introdução e de uma Conclusão geral, inclui fundamentalmente um inventário documental, cujo elenco de factos, acontecimentos e peripécias, cronologicamente alinhados por datas de ocorrência, assenta na selecção concatenada de Cartas e outras peças-fonte afins e relativas à História da Sahar Hassamaim, porém desta feita mais por relação directa não tanto à Comunidade Hebraica em si quanto ao que, ainda todavia respeitante a ela e envolvendo-a, se prende antes objectiva e intencionalmente com tudo o que diz (disse e dirá...) respeito à existência, percursos, percalços, tentativas de alienação e paralelos ou concomitantes esforços de preservação e resgate dos seus reciprocamente imbricados bens e patrimónios (isto é, os da Sinagoga e os da Comunidade, e cuja destrinça também aqui merecerá alguns diferendos...), particularmente as suas Toras e ainda mais concreta e especificamente sobre a(s) chamada(s) Tora(s) “de Rabo de Peixe” e “do Porto Judeu”, envolvidas ambas, como irei recordando de seguida, em narrativas, cenários e estórias nunca dantes realmente apurados em todos os seus misteriosos e enrolados contornos...

De resto, os textos que José de Mello vem continuando a publicar ainda mais incidem agora sobre o famoso episódio da Torah mediaticamente apelidada “de Rabo de Peixe”, a partir de cuja descoberta e nebuloso processo de recolha, identificação, guarida e propriedade muito de fabuloso e efabulatório (quando não, arriscadamente, de mistificador...) se disse e escreveu por todo o país e por esse mundo adiante.

3. Começa o citado artigo de José de Mello por remontar à origem de toda esta história da(s) Tora(s) rabo-peixense e porto-judense, fazendo-a regressar – e bem! – a um facto nunca até agora publicamente revelado e que constitui a chave-mestra indispensável para a decifração dos reais meandros que compuseram (e ainda compõem...) o rol de enigmas rodeando praticamente todas as narrativas, versões e especulações criadas à volta da dita história e que foram sendo tecidas desde 1970/71/72 até 1997 – mas com inúmeros hiatos, ocorrências e lacunas pelo meio... –, e que tem permanecido assim ora esquecidos, ora tacitamente dados por adquiridos, e por esses atalhos e veredas também reproduzidos simetricamente em reportagens, contos e lendas de cicerones turisteiros, mais ou menos dados a prosa fantástica e mimética, quando não delirantemente esotérica...

– Ora acontece que os variados documentos, na posse de Almeida Mello desde há cerca de ano e meio, e que foram trazidos dos Estados Unidos após consultas e diligências junto de um dos protagonistas desta história (o Rabino Nathan L. Landman), quando cruzados com as peças documentais e os testemunhos pessoais preservados e disponíveis nos Açores, todos juntos, configuram uma outra e totalmente diferente versão dos episódios da(s) aludida(s) Tora(s), permitindo-nos reenquadrá-los, de modo outrossim verosímil, fundamentado e comprovado (para não dizer desmistificador de relatos e posições individuais e institucionais (regionais, nacionais e estrangeiras), nomeadamente aquelas que foram produzidas por um militar norte-americano (o capitão Marvin Feldman, então estacionado na Base das Lajes) e (certamente de boa fé, conquanto, ao que tudo indica, na ausência involuntária de elementos de prova ou contraprova fiáveis) por um respeitável jornalista e investigador, especialista em assuntos israelitas e judaicos, como é Inácio Steinhardt.

A história de tudo isto, como continuaremos a ver e analisar – e que chega a abeirar-se de uma ficção fílmica quase à semelhança de outras divertidas produções e relatos fantásticos de salteadores de arcas e tesouros perdidos e achados, ou de manuscritos perdidos em grutas, esconsos poços e fundas cavernas bíblicas... – tem, apesar de tudo, algo de apaixonante, sem dúvida!

– Mas a Investigação Científica, com os seus métodos aplicados, tal como na Ciência Histórica positiva os mesmos são exigíveis, conquanto sem menosprezo da imaginação e da teorização racional e prospectiva, é fundamentalmente feita com base em provas reais, fontes sólidas e triagens críticas e logicamente confirmativas. E daqui, sem prejuízo de outras possíveis e livres narrativas, mais ou menos líricas (ou interessadas, sabe-se lá para alindar amiúde o quê!), não haverá fuga nem saída possível, por mais encantadora ou encantatória que seja a matéria no rolo da fantasia...

 

 

Colunista:

Eduardo Ferraz da Rosa

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