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ONDAS DE TREZE METROS

Sábado, 04 de Março de 2017 208 visualizações Partilhar

O belíssimo Cella Bar e o Museu de Cachalotes e Lulas, onde se expõe a colecção reunida por Malcolm Clarke, na Madalena do Pico, foram duramente atingidos por ondas de 13 metros no dia 27 de Fevereiro passado.

Trago aqui o assunto porque me parece fundamental perceber-se porque razões continuam a ser autorizadas, licenciadas ou deixadas fazer, construções daquele modo.

Com a expressão “daquele modo” não quero dizer, apenas, tão à beira mar e de tanta responsabilidade. Quero incluir todas as edificações que têm vindo a acontecer, licenciadíssimas e certas à luz de todos os documentos e preceitos legais aplicáveis, mas erradas do ponto de vista do território e da natureza, nomeadamente os humores da meteorologia.

Já em tempos levantei a questão – e ainda nem se falava, como se fala hoje, das alterações climáticas globais – quando um danado de um vendaval levou telhados inteiros, em Angra do Heroísmo.

Na ocasião escrevi que não me admirava nada do acontecido pois as casas atingidas estavam localizadas em zonas onde, durante mais de quinhentos anos, ninguém tinha construído nada, ou porque estavam “viradas ao vento”, como se diz, ou porque muito em cima da rocha, ou porque muito ao pé do mar, ou porque demasiado em cima, a descoberto e sem protecção.

Na Terceira e noutras ilhas, as casas antigas são viradas a nascente e sul, procuram a protecção contra os ventos dominantes a ponto de nem terem janelas para esses lados, estão dispostas longe das linhas de água, mesmo que seja das possíveis e não habituais, pois pode aparecer uma água desatinada, etc.

Tinha orgulho em dizer que sabíamos o mar que tínhamos em redor, o respeito que tínhamos por ele, o modo como edificávamos à distância mais certa, para garantir segurança., deixando uma boa distância de calhau livre para a rebentação.

Lembro-me, quando era pequeno, de ouvir os velhotes, sentados nos bancos da venda do terreiro de São Bartolomeu, onde passava os longos meses de férias de verão, a comentarem se fulano ou sicrano iam fazer tal casa ali ou acolá, pois havia quem se lembrasse de ter vindo “uma água por ali abaixo”, ou quando o mar ficava bravo e de certo rumo, “ia tudo dentro”, com o vento que fazia.

São apenas exemplos de uma sabedoria do território que garantia, tanto quanto possível, menos erros e menos desgraças.

Por isso me espanto com o que se passa agora, quando estamos num tempo em que a ciência está muito mais evoluída, embora a meteorologia ainda fuja um bocado aos modelos matemáticos de previsão; num tempo em que se fala e se sente a tal mudança global do clima; quando se sabe o que se passa e extensas zonas de costa dos Estados Unidos da América, onde as casas estão a ficar, de repente, sem praia defronte; quando se vê, a cada ano, as incríveis cenas de praias inteiras lavadas pelas ondas, nas praias portuguesas do continente.

Agora que se temem tempos piores e tempestades súbitas mais violentas é que se decide fazer tudo empoleirado onde nunca antes houve nada! Por alguma razão era, por maioria de razão é, agora!

É que o Cella Bar é lindo, o Museu interessante, o prejuízo grande e é escusado culpar os meteorologistas pois uma previsão é, sempre um exercício probabilístico!

O que se passa é que parece termos perdido a noção do mar que temos, do lugar que habitamos e dos riscos que corremos. A natureza não tem sentimentos! A começar pelas escolas e a acabar em quem decide e autoriza, importa arrepiar caminho e formar gente com os olhos abertos.

 

Colunista:

Francisco Maduro - Dias

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