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Do Pai e da indispensabilidade da mulher

Segunda, 20 de Março de 2017 241 visualizações Partilhar

Hoje (ontem) por ser dia de S. José no calendário católico comemorou-se, como convém ao calendário comercial, o dia do Pai. Cada calendário vale o que vale e não retira, nem acrescenta nada ao valor que o Pai tem para os filhos e para a Mulher com quem os partilha.

Recebi os habituais telefonemas dos meus filhos e também trouxe à memória coletiva das comunidades virtuais a que pertenço um texto que escrevi sobre o meu Pai. O ritual foi cumprido e não fossem algumas manifestações públicas, também nas comunidades virtuais, com origem nas mulheres que, como sabemos, não deixam os seus créditos por mãos alheias e este seria apenas e mais um dia. Um dia igual a todos os outros em que os meus filhos me telefonam e eu presto o devido tributo aos meus progenitores honrando, a cada momento, a herança imaterial que me legaram.

Recebi de uma querida amiga a seguinte mensagem, “Hoje é o teu dia meu amigo! (Mas só porque existe uma mulher! Feliz Dia do Pai!”. Num espaço mais alargado podiam ler-se outras publicações como, “Bom dia do Pai às Mães porque há Mães que também fazem de Pais a vida inteira (Tristão de Andrade)”. Estas e outras publicações lembram por um lado, a indispensabilidade da mulher e, por outro lado o Pai ausente.

Quanto à indispensabilidade da mulher é assunto que não tem discussão, o mesmo já não podemos dizer do homem. O homem é (ou pode ser) dispensável. São os escritos sagrados que fazem a doutrina no mundo cristão que o sugerem ao aceitarem que Jesus foi concebido sem a intervenção do homem. José Saramago no “Memorial do Convento” aborda a questão da indispensabilidade da mulher desta forma, “(…) porque a outra, e tão falada, incorpórea fecundação, foi uma vez sem exemplo, só para que se ficasse a saber que Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não possa dispensar-se de mulheres. (…)”. Estamos, pois, conversados sobre este assunto querida(s) amiga(s), só se comemora o dia do Pai porque existem mulheres. Mulheres que sendo Mães, quantas e quantas vezes fazem de Pai a vida inteira. Nunca tive ilusões sobre a importância do papel estruturante das mulheres nas sociedades, apesar da discriminação a que continuam a ser sujeitas.

Quanto ao Pai ausente também muito há para dizer quer sobre os motivos da ausência, quer sobre os efeitos que a ausência do Pai provoca na formação da personalidade das crianças e jovens, pois a falta um segundo referencial que identifique o Outro física e afetivamente presente é, em alguns casos, irreparável. A Mãe ou o Pai que ficam sós, por razões diversas, e se encarregam da educação dos filhos por muito que o queiram e o desejem não colmatam a ausência de um segundo referencial, fica sempre o vazio do Outro ausente.

Não sendo uma questão exclusivamente portuguesa, em Portugal é, normalmente, o Pai que não está presente, não importam agora as razões. A ausência do Pai, coabite ou não com a família, confere uma importância acrescida, que não é de agora, é de sempre, ao papel social das mulheres enquanto depositárias de valores culturais da sua família e comunidade de pertença. São as mulheres os veículos da transmissão dos valores e da cultura do grupo familiar e comunitário.

Os homens são importantes, mas também neste caso dispensáveis, embora isso não seja, de todo, desejável para as crianças e jovens que, enquanto crescem e se estruturam, necessitam de dois referenciais para se individualizarem.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 19 de Março de 2017

www.anibalpires.blogspot.com

 

 

Colunista:

Aníbal C. Pires

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