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Segundo Hollywood

Segunda, 17 de Abril de 2017 203 visualizações Partilhar

A tensão internacional atingiu, na passada semana, um nível de risco muito elevado e, o perigo mantém-se. Os riscos de um conflito mundial, desta vez, com recurso a armamento não convencional são reais. Dizer que este cenário se deve à controversa personalidade que preside à administração estado-unidense, é redutor. Há outros atores e uma situação complexa, mas atentemos apenas às ações que os Estados Unidos desencadearam recentemente.

O poder e o poderio militar dos Estados Unidos não residem apenas no presidente. As decisões militares estão protocoladas e, não sendo propriamente resultado de uma decisão coletiva, não dependem de um homem só. Por outro lado, a atuação dos Estados Unidos nos recentes ataques à Síria e ao Afeganistão contraria o discurso antissistema feito por Donald Trump durante a sua campanha eleitoral, ou seja, este não é um comportamento esperado. As ações bélicas dos Estados Unidos enquadram-se no tal sistema do qual Trump se procurou demarcar durante a campanha eleitoral. Ou Donald Trump encenou toda a sua campanha eleitoral, ou o sistema já o recrutou.

Quanto às ameaças e à mobilização de meios no que à questão coreana diz respeito, não separo o Norte do Sul porque considero que o problema diz respeito a todos os coreanos, trata-se da habitual encenação anual, desta vez com um discurso mais radical, mas que o arsenal nuclear coreano tem evitado que se passem das palavras à ação.

Não é a primeira vez que teço algumas considerações sobre o atual Presidente dos Estados Unidos e, numa leitura mais superficial, poderá parecer que existe alguma identificação política com o que ele pensa e defende. Nada disso. O que procuro fazer é uma reflexão sobre a realidade face ao conhecimento que tenho, que não é muito aprofundado, da política externa e interna dos Estados Unidos, da história mundial, da geografia política e económica e, dos poderes que verdadeiramente determinam as decisões políticas estado-unidenses. Apenas isso, o que já não é pouco.

A sociedade estado-unidense foi construída e alimentada com base em representações de sucesso individual. Esta construção social produz algumas distorções da realidade e induz, dentro e fora dos Estados Unidos, leituras e análises que reduzem factos construídos por grupos a atos puramente individuais. Tenho algumas dúvidas que os assassinatos de John Kenedy, do seu irmão Robert e, de Martin Luther King tenham sido planeados e executados apenas pelo seu autor material. Outros exemplos se podem aduzir aos anteriores como seja o atentado terrorista contra edifício do FBI em Oklahoma City. Encontrado um responsável a opinião pública descansa sobre o assunto e não faz mais perguntas. Simples.

Mas os Estados Unidos na sua saga de promoção da atomização produzem também super-heróis, os da banda desenhada e os do cinema. Com ou sem superpoderes todos conhecemos as histórias de um homem só a resolver os problemas que dizem respeito a todos na eterna luta do bem contra o mal. Todos nós consumimos, em determinado momento das nossas vidas, essa doutrina da qual não é fácil libertarmo-nos.

George Clooney não é um desse super-heróis a quem me refiro, mas é uma figura de referência, diria mundial e, sem dúvida, um excelente ator e, pensava eu, um cidadão bem informado, esclarecido e imparcial. Mas eis que se deixou enredar pela propaganda, não do café, mas da autointitulada Defesa Civil da Síria cuja face mais visível são os White Helmets, uma das duas organizações presentes no cenário de guerra e ao lado dos terroristas que procuram derrubar o governo legítimo da Síria. A outra organização é o Observatório Sírio de Direitos Humanos, quer uma quer outra são organizações não governamentais financiadas pelos Estados Unidos e Inglaterra, de entre outros países. Sobre o papel, o alinhamento e as ligações destas duas organizações ao Daesh e aos seus apêndices existem muitas e diversas provas, mas isso não impede Clooney de apoiar os White Helmets, para o qual propõe a atribuição do Prémio Nobel da Paz, e, talvez na sequência do documentário de curta metragem que este ano venceu o Óscar dessa categoria Clooney tenha anunciado a intenção de, em conjunto com a sua esposa Amal Alamuddin, produzirem um filme sobre os White Helmets. Filme que fará a apologia deste grupo que não pode deixar de ser considerado um aliado do fundamentalismo islâmico. Lamentável.

E assim vai caminhando o Mundo com rumo traçado por Hollywood.

Aníbal C. Pires, Ponta Delgada, 16 de Abril de 2017

www.anibalpires.blogspot.com

 

Colunista:

Aníbal C. Pires

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